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Entrevista: Ad Inferna

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Ad Inferna é mais um dos infindáveis exemplos de grupos que abandonaram seu gênero musical de origem radicalmente. Não é novidade que muitas bandas de Black Metal enveredaram pelo Industrial. Contudo, não se distanciaram 100% de suas raízes e mantiveram o peso e outras características. Já o Ad Inferna, após lançar seu trabalho de estreia em 2002 – uma obra-prima do Symphonic Black Metal -, abandonou o Metal e imergiu na música eletrônica. Por muito tempo ainda usaram vocais rasgados remanescentes de sua escola Black Metal, mas eliminaram qualquer resquício desse passado no último trabalho, que é mais voltado para o Synthpop, mesmo sendo bem introspectivo. Seja qual for o segmento musical abordado, os franceses sempre primam pela qualidade muito acima da média e isso fez com que fossemos atrás do vocalista V.V. Arkames, que possui um belo histórico na cena Black Metal de seu país, tendo gravado, também, grandes discos com a cult banda Seth. Aqui ele fala com entusiasmo de seus antigos registros, seu envolvimento com o Black Metal, sua “nova” fase e revela que o próximo lançamento do Ad Inferna trará de volta características remetentes ao período inicial do grupo.

Por que vocês encerraram as atividades após o lançamento de L’empire Des Senses?

A principal razão foi o fato de que o manager do selo alemão Last Episode era um trapaceiro. Last Episode era um rip-off: isso foi uma situação muito difícil para nós porque esse cara nunca pagou as bandas, alguns estúdios etc. Demos toda a nossa energia para fazer este álbum se tornar real, mas depois disso nós ficamos tão enojados com toda essa bagunça. Tivemos que fazer uma pausa e é isso que fizemos… por 7 anos.

Ad Inferna retomou as atividades em 2008 e lançou Trance :N: Dance, o qual representou um abrupto desvio no direcionamento musical do grupo. O que provocou as mudanças que lhe permitiram incorporar o estilo Industrial/Eletrônico predominantemente em sua música?

Nós não queremos fazer duas vezes o mesmo álbum. E por acaso VoA VoXyD e eu têm seguido a mesma evolução musical e a substância eletrônica foi algo que nós incorporamos à música do Ad Inferna. E, como você percebeu, há uma regra que sempre respeitamos: criamos o que queremos. Nós nunca respeitamos códigos, linhas ou princípios. Éramos livres para progredir no caminho que estamos agora. E Trance :N: Dance foi o primeiro passo dessa evolução.

Esse álbum possuía os instrumentos básicos do Rock – guitarra, baixo e bateria -, mas não se tratava de Industrial Metal (ou Rock). É um disco de música eletrônica com uma abordagem mais orgânica. Por que decidiram seguir posteriormente como um duo, sem baixo, bateria e pouca ou nenhuma guitarra?

De fato, pra mim, Trance :N: Dance é um bom álbum, mas não exatamente o que eu estava sonhando. Está faltando alguma coisa… Talvez um toque mais pessoal. Queríamos manter a formação original, mas isso significa ir em um estúdio com um engenheiro de som. Isso é para mim o ponto “negativo” neste álbum porque nós não poderíamos fazer exatamente o que queríamos, como foi o caso em There Is No Cure ou Opus 7: Elevation, por exemplo.
Essa é a razão pela qual decidimos trabalhar como um duo nas próximas produções, para compor, gravar, mixar e masterizar todas as faixas por nós mesmos e para controlar todas as etapas da criação de nossa música.

Seu interesse pela música eletrônica e pop foi evidenciado ainda no Seth com o cover do Depeche Mode. Foi sua idéia gravar este cover?

Exatamente. Eu tinha em mente um cover do Sisters Of Mercy ou Depeche Mode. Foi minha idéia também pedir para o projeto de Goa Trance, Total Eclipse, se juntar a nós nesta faixa.

Seus trabalhos com o Seth são memoráveis. O debut é uma pérola do Atmospheric Black Metal. O que você recorda dessa época e como avalia aqueles materiais hoje?

Obrigado pelos elogios. Lembro-me de um tempo em que o Black Metal era uma ótima maneira de se expressar, a música tocada por muitas das bandas era verdadeira, envolvente, às vezes extrema, às vezes melancólica ou depressiva, mas sempre sincera.
Honestamente, eu não gosto de ouvir a música que eu fiz no passado, mas, ás vezes, a ocasião faz com que eu veja um vídeo, ou redescubro faixas antigas que eu cantei. Estou completamente orgulhoso dos trabalhos que fiz com Seth. Isso foi há muitos anos… essa aventura começou em 1995. Os pontos positivos são, por exemplo, o fato de eu ter escrito todas as letras do álbum mais bem sucedido, Les Blessures de l’Ame, exclusivamente em francês. Fiquei muito feliz que um álbum escrito em minha própria língua poderia ser uma referência internacional para a cena do Metal Extremo.
Eu lembro também de todos os grandes momentos que tive com músicos noruegueses, como certa vez que eu fui à casa do Fenriz (Darkthrone) [N.R: Essa relação próxima  culminou na contribuição do Fenriz com uma letra no segundo álbum do Seth]… Algumas coisas você vive apenas uma vez em sua vida.
O último ponto positivo foi deixar a banda que eu criei antes das mudanças de direção musical que não se encaixavam mesmo com os meus gostos. Algo que eu nunca me arrependi!!!

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Qual é o estado atual do Black Metal, na sua opinião? E agora o quanto você se identifica com a cena underground?

Lamento dizer isso… Mas tudo o que eu ouvi recentemente é tão chato. Mas, talvez, eu não tive a oportunidade de ouvir coisas boas. Vou esperar pelo novo do Dodheimsgard porque Aldrahn está de volta à cena.
Não é Black Metal, mas o novo do Behemoth soa tão “extremo”… Eu gosto disso. Eu preciso de algo verdadeiro e todas as produções atuais sempre soam para mim como cópias de coisas que eu já ouvi antes. Onde está a inovação?

O mais recente álbum do Ad Inferna, Im Mortelle, é o mais diferente de sua carreira. Parece ser mais influenciado por Synthpop do que por EBM e Dark Electro. E tem um toque Gothic. O que influenciou esse novo caminho?

Im Mortelle é um álbum de Synthpop para mim, você está certo. Talvez precisávamos de algo “mais doce” depois de Ultimum Omnium, que foi mais agressivo e drástico. VoA VoXyD enviou-me algumas faixas e eu senti que ele queria fazer um álbum com um grande som eletrônico, algo espacial, com luzes preto e branco, sensual e, mesmo assim, mais frio do que nunca. Imaginamos uma viagem para as constelações e até a última faixa, você não pode dizer se essa história é real ou se é a criação da mente de um louco.

Sua performance em Moïra é fantástica. Os vocais sussurrados traduzem a concupiscência lírica de um modo muito cativante. Esse intimismo é a razão para que você ainda não tenha se apresentado ao vivo?

Obrigado por me entender como eu sou!!! Você está certo. Em cada uma das partes vocais que eu faço, eu dou uma parte da minha intimidade, da minha tristeza e do jardim secreto que escondo tão forte. Eu parei de tocar ao vivo em 1998… Meu último show foi como vocalista do Seth (tocando com Marduk etc.)
Eu não acho que vou fazer isso de novo. Não estou assumindo um papel: esse sou eu. Tento me incluir nas palavras, nas respirações que eu dou. Eu não posso fazer isso na frente de um público, por mais que adoraria conhecer todos aqueles que gostam da nossa banda.

Eu também não consigo imaginar tamanha entrega diante de um público. Bandas com interpretações intrinsecamente ligadas ao sexo me parecem naturalmente contrárias aos palcos. Imagine Anna Varney ao vivo?! Mas enfim, o que você pode nos dizer sobre o vindouro álbum do Ad Inferna que será lançado em breve?

Opus 7: Elevation é o nosso sétimo álbum e será lançado 26 de maio de 2014 pela Advoxya Records. Estamos muito orgulhosos deste álbum, você sabe. Decidimos criar um álbum de uma faixa, composta de 12 temas. Isto é inovador e muito conceitual. E deixamos nossas raízes Black Metal voltar em algumas partes. Este álbum pode agradar os fãs de Metal, Gothic ou Electro. Há tantas atmosferas diferentes, é tão difícil para eu descrever. É sombrio, grandíloquo, orquestral, extremo e romântico.
Para a ocasião, convidamos vocalistas como Lindsay Schoolcraft (Cradle Of Filth), Melissa Ferlaak (Plague Of Stars, Aesma Daeva, Visions Of Atlantis), Kassandra Novell (Eve’s Apple), Sanna Salou (Dimlight), Grace Meridian (Shield Of Wings). Morfeus (ex-Mayhem, ex-Limbonic Art, Dimension F3H) se juntou ao time para tocar as partes de guitarra na faixa InVisible.

Obrigado pela entrevista, Arkames!

Obrigado, André. Convidamos os leitores a ouvir Opus 7: Elevation. Tenho certeza de que não vão se decepcionar!

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Após algumas experiências escrevendo em blogs de música, editei sozinho uma revista sobre Black Metal em 2012. Foi lançada apenas uma edição, que me proporcionou a oportunidade de escrever para a Roadie Crew a partir de março/2013. Lá me limito apenas ao Black Metal e bandas de outras vertentes com temáticas ligadas ao ocultismo/satanismo. Apesar de ter um gosto musical variado, nutro um fascínio por esse estilo e temáticas relacionadas. No Groundcast, meu foco é a Música Eletrônica, principalmente de caráter oculto/satânico.