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Mallu Magalhães ou a internet burra de cada dia

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Acredito que o primeiro a usar a expressão “sociologia de botequim” foi Manuel Messias Mendes Almeida, que inclusive lançou um livro com esse mesmo nome, onde reuniu textos diversos que foram publicados em diversos locais, sobretudo em O Diário. Decerto que ao nomear seu livro, pensou na ideia do botequim como o caráter de informalidade, de leveza, do assunto do cotidiano, do cidadão comum e da linguagem não-ortodoxa.

A internet, entretanto, tem sido propícia a uma nova geração de filósofos de botequim. Não são pessoas dispostas a discutir um assunto sob um prisma minimamente aceitável, tampouco que almejam alguma coisa além de problematizar aquilo que não faz sentido algum problematizar. A típica filosofia de botequim dos tempos contemporâneos se traduz simplesmente naquilo que o falecido Umberto Eco chama de superinterpretação, que significa uma compreensão além do que é possível extrair de um evento comunicativo.

Maria Luiza de Arruda Botelho Pereira de Magalhães, chamada pelo nome artístico de Mallu Magalhães, é conhecida como alguém que tinha um relacionamento complicado, em virtude da idade, com Marcelo Camelo, da defunta-não-defunta banda Los Hermanos, por uma carreira solo inicialmente muito tímida, que fora alavancada após a formação da Banda do Mar com o seu esposo e algumas músicas que fizeram sucesso, como “Velha e Louca”, “Tchubaruba”, “J1” e “Shine Yellow”.

A internet, entretanto, tem sido propícia a uma nova geração de filósofos de botequim.

Musicalmente falando, a artista nunca foi nada além do medianamente medíocre. Se você não for lá muito exigente com relação à música (e decerto que seu público não é), dá para curtir aquele “folk fofo” que tenta soar sério. Um indie com alguma referência ao rock nacional dos anos 1970, com alguns bons arranjos que não tornam a música melhor. Uma cantora extremamente desafinada ao vivo, que também não consegue tocar adequadamente as próprias músicas, mas que ainda sim tem seus trabalhos bem-conceituados em sites especializados, o que explica exatamente uma das coisas mais vexatórias que vem acontecendo graças a uma artista que, em outros meios, estaria fadada ao ostracismo.

Mallu fez um clipe considerado racista. Nessa primeira leva tivemos os sociólogos de botequim de internet colocando em rede o seu descontentamento e interpretando coisa que não havia ali. Por mais que eu ainda não suporte essa música, o clipe é bacana dentro da sua proposta e, exceto se você pertencer a algum desses movimentos super descolados desconstruídos, não tem nenhum teor racista ali. Pode ser que exista um gosto um pouco duvidoso na execução de dançarinos que não tenham muito a ver com a música, mas, pasmem, isso acontece desde que inventaram o videoclipe.

Graças a isso, a cantora resolveu se retratar por ter passado uma imagem ruim acerca de si mesma como racista. Existe uma frouxidão, um bundamolismo muito grande nesses artistas que precisam o tempo todo pedir desculpas por serem mal interpretados. Parece que o medo de desagradar fã é maior do que a própria produção artística e assumir um pedido de desculpas toda a vez que um grupo de fãs se enfurece com algo sem muito sentido é do mesmo nível de tacanhice do Criolo ao mudar a letra de um rap para agradar a juventude e ficar de boas com a galera sócio-desconstruída e sua sociologia de botequim. Faz falta um artista assumir que fez o que fez e, se bate aquele arrependimento, não executar mais a música, ao invés de se rebaixar para agradar aos leitores do Huffington Post e do Catraca Livre, dois veículos de comunicação desse tipo de militância liberal good vibes hipócrita.

Existe uma frouxidão, um bundamolismo muito grande nesses artistas que precisam o tempo todo pedir desculpas por serem mal interpretados.

Contudo, graças a uma fala de alguns poucos segundos no programa Encontro com Fátima Bernardes, na qual ela diz claramente que ”Essa é para quem é preconceituoso e acha que branco não pode tocar samba”. A música escolhida, claro, é a mesma do clipe que rolou a polêmica de racismo e, como não podia deixar de ser, causou um rebuliço muito grande e reavivou o espírito dos sociólogos de botequim. Parece que, ao julgar pelo que se lê tanto de locais que assumidamente falam qualquer merda por interpretarem qualquer coisa como preconceito quanto de gente que é assumidamente mais racional, a dona Maria Luiza conseguiu, enfim, trazer o pior e o mais nefasto exemplo de como as pessoas pararam de pensar e seguiram a manada para reproduzir coisas sem pensar muito no que estão dizendo.

Isso não isenta a artista de modo algum. Ela falou bobagem, teve uma fala tola, infantil até, em um momento que não faz muito sentido para a tônica da sua apresentação. Talvez quisesse rebater alguma crítica que recebeu por causa do clipe de Você Não Presta e, convenhamos, não passou disso. Em momento algum ela diz que branco sofre preconceito ou que branco não toca samba. Lembra do que eu falei sobre superinterpretação? É a tal da história de simplesmente as pessoas já lerem ou ouvirem um discurso com uma conclusão formada, uma espécie de viés cognitivo bastante ruim. Poderia até mesmo discorrer que muita gente está falando que ela disse sobre “branco sofrer preconceito”, mas o que ela REALMENTE disse foi com relação ao samba, que não é visto como algo que pode ser feito por alguém que não seja negro, não que um branco sofra racismo ou preconceito por tocar um samba ou que nenhum branco o tenha feito antes dela.

Entretanto, a sociologia de botequim das pessoas sócio-desconstruídas tende ao absurdo de atribuir o que não está presente nem ao menos no contexto da fala. Ninguém parou para pensar que os problemas da fala dela são: 1) categorizar que existe gente que ainda pensa que existem estilos de negros e de brancos (e, creiam, isso existe); 2) a tentativa flébil de constantemente ser aceita por um público altamente alheio ao mundo real, trancafiado em suas “lacrações”, esquecendo-se completamente que no mundo dos adultos, a coisa não funciona do jeito que eles pensam; 3) a falta de uma assessoria de imprensa para essa menina, para que ela saiba minimamente se portar, sobretudo para lidar com críticas, porque elas são INEVITÁVEIS, mesmo em artistas bons.

Quem disser que não existem gêneros em que brancos são mal vistos deve desconhecer o rap. Embora existam brancos fazendo boas músicas, há uma galerinha (pouca, mas existe) que acha que rap é coisa para negro. Raffa Moreira é um desses caras que defende que vê a entrada de brancos no gênero como a degeneração e o fim dele, deixando até mesmo de fazer parcerias com outros rappers por estarem junto de brancos. Não constitui, entretanto, algo que vá excluir um branco do círculo social ou mesmo impedi-lo de tocar em qualquer lugar que seja possível. Da mesma forma acontece com o samba. Tem gente que acredita existir uma pureza naquele produzido pelos negros, vendo o branco “apropriando-se culturalmente” das formas e das melodias, tal qual fez com o rock e o jazz.

O que me incomoda é, sem dúvidas, todo esse escarcéu em cima de uma frase tola. Não há necessidade de crucificar a moça por algo que ela não fez. Talvez reclamar da falta de desenvoltura, de não saber se portar como artista, de dar muitos deslizes. Até mesmo porque existem coisas mais pontuais dentro da música que mereceriam muito mais atenção e a Mallu Magalhães, sem dúvidas, não é uma delas.

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