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Minha lista dos melhores de 2016

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Faz dois anos que não escrevo uma lista de melhores do ano. Seja pela falta de tempo ou, por que não, pela falta de interesse da minha parte. Mas nesse ano que já findou (tarde), saiu muita coisa legal e eu vou destacar alguns discos que eu ouvi bastante e um que me decepcionou muito.

Labirinto ‎– Gehenna

Uma das coisas mais impressionantes desse trabalho é, sem dúvidas, o fato dele ser brasileiro e trazer uma sonoridade que foge demais dos padrões do que é normalmente feito aqui no país pelas bandas de metal. É uma pegada totalmente diferente dos anteriores e meio que é uma “continuação” do EP lançado anteriormente, o Masao. Como um disco totalmente instrumental, ele impressiona, até mesmo quem não é fã do post-metal, por trazer uma sonoridade bastante complexa e ao mesmo tempo acessível.

Will Geraldo – We Share the Same Moonlight

O Will é um grande amigo meu com muito talento e bom gosto para as produções musicais que ele encabeça. Nesse primeiro disco solo ele nos entrega uma mistura muito coerente de rock progressivo que não é rock progressivo ao mesmo tempo. Tem de tudo ali, de pop rock ao trip hop e isso me impressionou demais a primeira vez que eu ouvi. Eu me senti bastante feliz por ter recebido este trabalho e por saber o quanto de dedicação tem nele.

Metallica ‎– Hardwired…To Self-Destruct

Vocês podem chiar o quanto for, mas esse disco ficou excepcionalmente incrivelmente descaralhaçador. Em primeiro lugar, porque ele mostra o Metallica fazendo um resgate de muito bom gosto de sua fase thrash metal e reaproveitando muito do Load e do Reload, dois discos questionáveis, mas que ainda tem alguma coisa interessante para se ouvir. Mesmo com algumas falhas em termos de aproveitar demais as frequências médias e deixar o som meio “quadradinho”, é um excelente disco.

David Bowie ‎– (Blackstar)



Uma das grandes perdas de 2016 foi sem dúvida a do grande camaleão do rock, o senhor David Robert Jones, conhecido pela alcunha de David Bowie. E que disco maravilhoso, extremamente experimental, passando por muitos gêneros musicais diferentes. Existe uma coisa de interessante nesse trabalho que é justamente esse lado que ele explorou logo no final da vida, deixando uma obra muito bonita e muito tocante, ainda mais depois da sua morte. Uma pena, mas ainda sim um dos grandes discos de 2016.

Perturbator ‎– The Uncanny Valley

Eu acho essa onda de synthwave, até mesmo como gênero, uma grande porcaria. Até o vocalista do Dope Stars Inc., o Vitor Love, tem um projeto assim. Mas confesso que o projeto do ex-músico de black metal, James Kent, também filho do grande jornalista Nick Kent, que também já escreveu muito sobre música, sobretudo rock e punk, me impressionou demais. Acredito que ele ainda guarda alguma coisa de metal em muitas das coisas que ele faz, também por conta dos climas mais darkwave com que o trabalho dele flerta, tudo isso criou um disco muito legal.

Genocide Organ ‎– Obituary Of The Americas

Que disco foda pra caralho. Primeiro por ser um trabalho dos já sensacionais alemães do Genocide Organ, que sempre trouxe polêmicas acerca de suas posições políticas e sociais, sobretudo no começo das atividades. Nesse trabalho trouxeram o lado mais podre e destrutivo das operações e grupos na América Latina, que luta diariamente contra os grandes narcotraficantes que alimentam a Europa com cocaína. Lindo demais.

Hanging Garden ‎– Hereafter

O gênero doom / gothic metal tem passado por um ostracismo muito grande desde que aquelas merdinhas de bandas de vocal feminino, tipo Epica, passou e causou a saturação em selos e gravadoras. Mas o Hanging Garden traz aquele som gostoso de ouvir, sobretudo porque ele resgata aquela sonoridade do começo dos anos 2000 e também faz um tributo ao começo de bandas como Katatonia e Paradise Lost.

Iamthemorning ‎– Lighthouse

Post rock com prog rock e folk não poderia dar errado. E os russos do Iamthemorning, escrito assim mesmo, juntinho, faz aquele som gostoso de ouvir, sobretudo porque é uma música acústica, com um lindo vocal feminino de Marjana Semkina. Também flertam com a música de câmara e em alguns momentos, com aquela coisa horrorosa do indie-folk, mas que com esse grupo funciona incrivelmente bom.

Oathbreaker ‎– Rheia

Eu já era muito fã da banda desde o disco anterior, o Eros / Anteros, mas nesse trabalho eles conseguiram trazer o melhor do post-hardcore e do black metal numa musicalidade assustadoramente incrível, sobretudo pelas músicas com um teor mais variado, com momentos que até arriscam aquele noise rock sujo que cai muito bem com a banda. Não tem como descrever mais sobre esse trabalho que pode ser considerado uma das grandes obras primas do grupo.

Haken ‎– Affinity

Eu considero esse um ano bastante interessante para o prog metal e o math rock, pois tivemos um monte de lançamentos bons para compensar aquela bomba de chorume que foi o The Astonishing do Dream Theater. Nesse disco temos uma banda que mostra que o bom metal progressivo não precisa ser feito cheio de frescuras técnicas e de elucubrações cancerígenas que não levam a lugar nenhum. O Haken faz esse som gostoso de ouvir, com muita técnica e vigor, então ele conseguiu aquele lugarzinho cativo nos discos de 2016.

Tusmørke ‎– Ført Bak Lyset

Esse disco prova que o bom progressivo não está morto e consegue sobreviver mesmo com tanta porcaria lançada nos últimos anos. Já devidamente indicado num podcast, ele me impressionou positivamente, sobretudo por ser cantado em norueguês e resgatar algumas das músicas tradicionais do país.

Sylvaine ‎– Wistful

Eu entrevistei duas vezes a excelentíssima senhorita Sylvaine e nessa segunda entrevista também foi acompanhada de alguns comentários sobre o novo disco, que para mim é sensacional. Ela conseguiu juntar nesse disco aquele pop de teor bem melancólico ao post-black metal na linha do Austere e do Alcest, além de doses generosas de post-rock e de ethereal. Tudo nesse disco é lindo e maravilhoso.

Cult Of Luna / Julie Christmas ‎– Mariner

Eu acho esse disco sensacional em todos os sentidos. Primeiro por ser uma parceria do pessoal do Cult of Luna com Julie Christmas, que traz aquele sabor meio noise rock / shoegaze ao trabalho. É o disco mais diferente de todos os trabalhos já feitos pelo grupo, chegando a lembrar um bocado o Marriages.

Neurosis ‎– Fires Within Fires

O Neurosis é uma daquelas bandas que precisam ser ouvidas por qualquer pessoa que considere a si mesma fã de metal. Seja por trazer aquele post-metal com altas doses daquele hardcore gorduroso, seja porque cada disco é uma bizarrice e um show de criatividade, seja porque o metal mais quadradinho está ficando deveras muito chato, o importante é que o grupo é bom, vale a pena ser ouvido e este disco não fica fora disso.

Thief ‎– Thieves Hymn in D Minor

O que tem me decepcionado um bocado no darkwave é a falta de criatividade das novas bandas e as bandas antigas com discos cada vez mais chatos. Esse projeto, do D. Neal, da banda de black metal Botanist, traz uma música sombria, gostosa de ouvir, sobretudo por trazer aquele ar melancólico do gótico com muito trip hop de influências como Massive Attack e Portishead. Vale ser ouvido em cada música, sobretudo para quem gosta de uma música mais triste, com algum peso e também que seja criativa.

King Dude ‎– Sex

Que discão da porra esse do King Dude. Primeiro porque ele aposta numa roupagem mais rock, mais gótica e menos folk que os trabalhos anteriores e traz músicas de muito bom gosto e apuro técnico. Lembra um bocado aquelas bandas do começo do gótico, mas com alguma coisa de folk / blues, meio que nem o Bain Wolfkind. É bom, é pesado e é muito bem produzido.

Ihsahn ‎– Arktis.

Depois do primeiro disco, o The Adversary, o Ihsahn não tem lançado nada que fosse digno de nota até o Arktis. Confesso que a capa não revela muito deste trabalho excepcionalmente interessante, sobretudo por ele ter abandonado aquelas frescuras de grupos de prog metal e resolveu apostar numa sonoridade mais coesa e coerente, sem abrir mão da diversidade. Ele consegue aliar o bom rock dos anos 1970 com alguma coisa moderna e isso faz desse o melhor disco da carreira.

The Gerogerigegege ‎– Moenai Hai

Juntaro devia ser canonizado e sua obra ensinada como música de qualidade em todas as escolas do mundo. A volta do Gerogerigegege traz ao mundo um trabalho muito amadurecido musicalmente, com fortes influências de harsh noise e de raw black metal, numa fórmula não tentada anteriormente nos trabalhos desse projeto. É algo tão maravilhosamente estupendo e estupificante que também poderia vir seguido daquelas performances lindas e maravilhosas no Gerogerigegege oldschool.

Decepção do ano

Opeth ‎– Sorceress

Eu fiquei muito em dúvida se colocava esse disco ou o do Alcest ou mesmo o do Katatonia. Mas no cômputo geral, esse trabalho ficou muito abaixo das minhas expectativas por alguns motivos bastante inconvenientes. Primeiro, por mais que eu goste muito do prog rock dos anos 1970 e acho até bacana alguém se inspirar nesse período para compor, falta ao grupo alguma coisa que saia daquela emulação perneta desses grupos. Comparativamente está melhor que aquela bomba do Pale Communion e tem até uma música muito boa, com uma levada meio Alice in Chains, que é a Sorceress e a Chrysalis, que é fantástica. O Opeth não tem a mesma genialidade do Gentle Giant ou do Camel nesse sentido e o que temos é uma sucessão de músicas com o mesmo padrão das bandas mais antigas. Mas o disco ainda apresenta um potencial muito grande do que pode vir, quem sabe, no seu sucessor, uma vez que aqui existem muitas boas ideias muito mal aproveitadas, sobretudo nas partes acústicas. O que parece é que a banda não é muito boa em lidar com composições puramente progressivas ainda, mas que tem potencial para, mais adiante, lançar algum disco que não soe apenas como uma simulação de tudo aquilo que veio antes e tenha alguma personalidade.

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