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O conservadorismo do meio metal e como deixamos isso acontecer

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Faz um bom tempo desde que escrevi sobre o problema, apontando para o underground e para o Phil Anselmo. E é bem verdade que, tanto do lado mais reacionário quanto do lado mais “à esquerda”, saber que a mentalidade do fã médio de metal ainda é bastante calcada numa visão conservadora, fechada e, infelizmente, pouco condizente com o que o gênero diz representar.

Olhando lá no livro da Deena Weinstein (2009), no que tange a origem do heavy metal e sua implicação social, o que mais marcou o gênero em sua gênese era o fato dele provocar reações muito viscerais tanto entre quem gostava dele quanto em quem o odiava. O metal sempre atacou aqueles valores dados como corretos, como os limites moralmente aceitos dentro da cultura ocidental. Entrava em conflito tanto com as bandas da esquerda liberal, o que inclui quase todas as bandas politizadas do começo do punk rock quanto dos religiosos conservadores, o que implica na ideia de total desligamento político e a falta de engajamento dos jovens envolvidos.

Isto representa que, antes de tudo, heavy metal era sobre como transgredir os limites sociais, sobre como não se apegar a ideologias que tentavam ser hegemônicas e sobre como viver num mundo que passou por duas grandes guerras e vivia na disputa de poder entre o capitalismo e o socialismo. Suas temáticas líricas eram ligadas a temas contrários ao do hard rock da época, sobretudo pela ausência letras sobre amor, pelos temas relacionados ao sexo descompromissado (W.A.S.P. – Animal (F**k Like A Beast), Krokus – Mr. 69 ) , ao uso de drogas (Black Sabbath – Sweet Leaf, Saxon – party ‘till you puke) a destruição de valores religiosos (Slayer – Evil Has No Boundaries) , críticas às grandes guerras e a violência urbana, representando a sociedade como uma entidade que cometeu e ainda comete muitos erros, entre muitos outros temas que não eram e ainda não são comuns à música pop.

Além das temáticas, o heavy metal era, por conta de seus visuais, fãs, música e comportamentos, considerado controverso, que nas palavras de Hjelm (2011), se caracteriza pela existência de um aspecto material, um público, um discursivo-simbólico e, não menos importante, um aspecto subjetivo. O primeiro deles se dá na concepção mais evidente de todas: controvérsia existe porque pessoas as criam. Nada pode ser controverso sem o elemento ser humano. Para o segundo, a existência de pessoas que publicamente irão se colocar contrárias a um novo álbum, a um determinado grupo, tais como políticos ao falarem que “heavy metal é coisa do diabo” ou aquele pastor de igreja que pede a seus fiéis em rede nacional para tomarem cuidado com os jovens vestidos de preto.

Também questões de preconceito racial e de sexismo vão aparecer muito nas cenas de heavy metal.

O terceiro aspecto reside na produção de imagens que fazem sentido dentro da nossa realidade, tal qual a imagem de igrejas queimando ou de demônios estampando capas de álbuns ou tatuagens. Toda essa imagem trabalha com discursos que normalmente vão contra qualquer coisa conservadora. Quando um artista como o Gorgoroth coloca cabeças de bode no palco e modelos banhadas em sangue, isso representa não apenas um choque visual, mas uma associação de ideias e valores que se opõe ao cristianismo, da mesma maneira que o visual agressivo dos músicos contribui para o discurso de oposição àquilo que é considerado “correto” e “formal”.

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No último aspecto, controvérsia existe dentro da percepção individual, o que significa que nem todo mundo vai achar polêmico um show de black metal. Contudo, dentro dessa individualidade, existe um consenso entre o que é e o que não é apropriado, correto e ameaçador. E o heavy metal, essencialmente, se coloca contra esse tipo de consenso o tempo todo, atacando as fontes do conservadorismo de forma direta e consciente. Espera-se, inclusive, que o gênero atraia sempre a ideia de se opor ao senso comum.

Isto não quer dizer que o metal é progressista, esquerdista ou qualquer coisa que o alinhe com alguma linha política. Um dos pontos em que este gênero musical se coloca contrário ao punk é justamente por não desejar para si um lado mais politizado, adotando esta ou aquela bandeira como parte do seu discurso musical. Isto não evita que grupos possam eventualmente assumir bandeiras mais à esquerda ou mais progressistas, mas este fenômeno decorre dos anos de 1990 em diante. Também questões de preconceito racial e de sexismo vão aparecer muito nas cenas de heavy metal. Isto decorre, segundo Schaap (2013), pelo alinhamento do heavy metal ainda ser muito próximo ao do pop no que tange as regras de gênero, pois seria uma oposição com valores masculinos contra a domesticação das pessoas, o que não incluiu as mulheres no meio.

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Isto quer dizer que, mesmo ainda residindo problemas de ordem estrutural, o heavy metal não se alinhava com o conservadorismo, pois este tinha noções muito rígidas de ordem e comportamento. Estude, cresça, arrume um emprego e constitua uma família, seja temente a Deus e odeie os ideais progressistas. Critique a liberdade sexual, considere-a uma afronta aos valores da moralidade e da família. Qualquer um, exceto os conservadores, são seus inimigos e devem ser combatidos. Esses pensamentos permearam durante muito tempo o mundo durante muitas décadas e o metal sempre era colocado como um inimigo a ser vencido. Nos EUA existiram políticos condenando o metal por “corromper os jovens”. Religiosos, sobretudo àqueles alinhados com as diversas formas de cristianismo, demonizavam aquele visual carregado, aqueles cabelos compridos, tudo como se fosse resultado dos desígnios de Satã.

Mas o que aconteceu para que, hoje, o público do metal e também do metal extremo, fruto da inconformidade com as bandas mais mainstream, passassem a aceitar o conservadorismo em sua forma mais pesada? Onde que a cena passou a permitir a presença de religiosos extremistas, fanáticos neonazistas, preconceituosos de todo o tipo, fazendo parte e simplesmente não se importando com nada disso? De que maneira a presença cada vez maior de mulheres na cena tem contribuído cada vez menos para a superação dos papéis de gênero dentro da cena metal? Como que um pessoal cada vez mais jovem pede pelo militarismo e tem um fetiche pela força bruta, coisa repudiada por muitas das bandas às quais hoje também fazem um discurso parecido?

A resposta não é simples. Nem tem como ser simples, uma vez que existe uma série de fatores a serem considerados. Para facilitar, vou separar aqui alguns motivos que tornaram boa parte da cena mais reacionária, mais conservadora e totalmente oposta ao que era em seu surgimento.

1)Falta de identificação com a realidade: O heavy metal, como fator social, sempre bateu de frente com um mundo extremamente conservador. O Iron Maiden, no seu single Sanctuary, trazia um desenho da Thatcher sendo morta pelo Eddie, mascote da banda. O black metal emergiu na Noruega e se tornou um gênero musical nacional devido a popularização do próprio heavy metal e também criticava os valores religiosos e heterodoxos do cristianismo.

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Contudo, cada vez que mais bandas iam ficando famosas, arrumando contratos com outras gravadoras e alcançando, de algum modo, o mainstream, esse discurso anti-conservador foi desaparecendo. Isto atingiu em cheio o heavy metal tradicional e o power metal, que passaram a ter como foco temas ligados à fantasia e também aos sentimentos, se aproximando da música pop. Com isso surge um novo público para essas bandas, um público que tem pouca conexão com o conteúdo lírico e imagético de protesto. As grandes bandas, como Metallica e Iron Maiden, passam cada vez menos a abordar temas que contestem o conservadorismo e isso influencia também bandas menores. O thrash metal sofreu muito com isso trazendo bandas que protestavam contra qualquer coisa, com um discurso esvaziado e sem sentido.

Essa desconexão também aconteceu em outros gêneros, como o hip hop e o punk. Contudo, o rap ainda mantém, junto com a cena mainstream, uma outra, autônoma, que busca por meio da música, conscientizar o pessoal mais pobre das péssimas condições e alertar para o descaso do poder público. O metal e o punk, por outro lado, vão constituir essa cena mais crítica de forma muito mais dividida e esparsa, com menos integração entre as próprias bandas. É muito mais fácil encontrar um artista underground de Rap trazendo uma crítica social mais consistente do que uma banda que vai falar que o “Cristianismo é o mal do mundo”, sem nem ao menos colocar isso de forma clara, apelando para todos os grandes clichês possíveis.

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2) Os músicos se tornam conservadores: gente como o Dave Mustaine, Ted Nugent, Bruce Dickinson, Gene Simmons, entre outros, se tornam exemplos de pessoas de sucesso. Não são drogados, não são rockstars. São exemplos de empreendedorismo, do sucesso pelo esforço, da luta dentro de uma realidade como a de ganhar vida com a própria arte. São exemplos a serem seguidos.

Há uns vinte ou trinta anos, a última frase não faria o menor sentido. Artistas de metal não seriam jamais considerados exemplos a serem seguidos. Seriam os drogados, os satanistas, aqueles que não respeitam os valores da família tradicional. Seriam os vagabundos, os delinquentes. E isso ressalta o problema do quanto o próprio metal passou a fazer parte do discurso do mainstream. Basta analisar a história de muitos artistas pop como vencedores por conseguirem uma carreira de sucesso. Quase como a ideia do self made man, que sozinho alcança o sucesso e colhe os frutos do próprio esforço pessoal. No meio da música esquece-se do papel das grandes gravadoras, da equipe de marketing, do produtor, do empresário, de toda uma cadeia que faz aquele artista chegar no seu público.

Isto igualmente afeita o comportamento dessas pessoas dadas como modelos. Dave Mustaine e Gene Simmons são a síntese de tudo isso, representando, por meio de declarações fora de seu ambiente musical, reforçando ideologias dominantes. Ressaltando aspectos como religião e mercado como fatores importantes para o crescimento. Vendendo uma falsa noção de “atitude” como se ela pudesse ser apenas adquirida por gostar de heavy metal. Aos poucos se afastando do aspecto contracultural de antes, mas mantendo uma imagem de “revolta” que o som pesado traria. Com exceção do finado Lemmy, todos os outros grandes artistas pegaram para si elementos do que é dominante e tornaram isso uma fonte de renda.

Esse fenômeno atraiu um público que também vê nesse sucesso pessoal das bandas uma forma de desejo. Alguns deles, inclusive, começam suas bandas inspiradas não somente pela música, mas pelo êxito. Pensam em grupos musicais como empresas, minando a criatividade, uma vez que, como tal, precisa dar lucro e não pode se dar ao luxo de experimentar. Esses grupos começam a pensar em agradar os fãs no lugar de transmitir uma mensagem ou dizer alguma coisa com sua música e com seu visual. É um comportamento que repete a mesma fórmula de sucesso da música pop, engessando qualquer tentativa de renovação ou de inovação, tornando a música mais “engolível”, exceto se você estiver em pequenos selos ou for independente. Mas mesmo assim, com a valorização do “underground maravilhoso e rico”, esses meios também tendem a adotar uma postura muito mais conservadora.

3) Heavy Metal se tornou um produto a ser consumido: muitos fãs dizem que apenas apreciam o som independente da mensagem. É o tipo de pretexto que faz com que eles consumam, sem nenhuma culpa, conteúdo de grupos com ideias radicais de exclusão, preconceito, racismo e outras. Porque, dentro de uma ótica mais contemporânea, o que importa é se o som agrada ou não.

Não que este tipo de postura esteja errada, senão os grupos instrumentais não teriam nenhum sentido de existirem. O problema é que isso se torna uma desculpa para se aceitar qualquer merda. Recentemente o músico Aron Romero, das bandas Anarkhon e Power From Hell, foi preso por tentativa de estupro a uma garota de 16 anos, segundo constam algumas fontes. E a maior preocupação de muita gente no meio era se isso ia manchar a cena, no lugar de dar apoio à vítima ou repudiar este tipo de coisa. E nem precisa falar muito sobre a Power From Hell, cujas capas e letras remetem à violência contra a mulher…

Capas de discos da banda Power From Hell
Capas de discos da banda Power From Hell

O metal, portanto, se tornou um produto, consumido simplesmente ignorando totalmente os discursos presentes neles. Então não faz diferença qual a ideologia contida na concepção do trabalho, o que vale é apenas o som, numa fragmentação que atende muito bem ao gosto daquele moleque que acredita em qualquer porcaria postada na internet. É o que faz as pessoas tolerarem tudo, sem questionar, sem nem ao menos ver se aquilo é condizente com o que o “underground” deveria aceitar.

E agora José?

Portanto, o heavy metal e quase todos os seus subgêneros perderam a sua identidade como contestadores do status quo e passaram a reforçá-lo cada vez mais. Enquanto os próprios artistas e as bandas continuarem nesse pensamento deslocado da realidade e não agirem de acordo, teremos a cena vista como uma cena extremamente conservadora e cagadora de regras. Com desrespeito às liberdades individuais, coisa muito valorizada naquelas músicas que falavam sobre combater os dogmas sociais. Parar com esse processo de oferecer, quando feitas, críticas vazias e sem sentido ao sistema vigente, críticas genéricas, críticas que não levam a nenhum tipo de reflexão.

Não é preciso, contudo, que se coloque um lado político ou que, de repente, todo mundo comece a se politizar e assumir um partido. O hip hop consegue até hoje fazer duras críticas a todo um sistema sem necessariamente ser partidário. Mesmo em bandas politizadas como o Vingador e o Violator, não existe o partidarismo, mas sim uma constante exposição do quanto as figuras conservadoras se tornam cada vez mais fortes. É como o Brujeria e suas críticas ao agora eleito presidente Trump. Não é preciso ser “de esquerda”, como alguns podem pensar. Mas talvez lembrar que o gênero e sua cena não deveriam concordar com algo que mantém os mesmos estereótipos do resto da cultura dominante.

Alguns textos que vocês deveriam ler

HJELM, T.; KAHN-HARRIS, K.; LEVINE, M. Heavy Metal as Controversy and Counterculture. Popular Music History , v. 6, n. 1, p. 5–18, 2011.

SCHAAP, J.; BERKERS, P. Grunting Alone? Online Gender Inequality in Extreme Metal Music. IASPM@Journal, v. 4, n. 1, p. 101–116, 2013.

WEINSTEIN, D. Heavy Metal The Music And Its Culture. New York: Da Capo Press, 2009.

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