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O funk é o novo punk

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Provocar uma sociedade conservadora. Criar melodias que desafiam o bom gosto. Dar voz às camadas oprimidas pelo capitalismo e pelo Estado. Usar da vulgaridade e da violência como forma de chocar o senso comum. Sim, estou falando do funk carioca, gênero que tem, por todos os meios desafiado o conservadorismo e colocado em pauta certos paradigmas.

Que me perdoem os fãs de rock, mas a descrição acima faria sentido nos anos 70 e 80. O surgimento do estilo consagrado por bandas como The Doors, Rolling Stones, David Bowie e outros grandes nomes trazia dentro de si a semente de uma juventude cansada das guerras, cansada dos governos que se colocavam sempre contra o povo. O punk gritou a plenos pulmões a necessidade de uma mudança social, tornou-se ícone de rebeldes contra as normas, cujo visual era, em primeiro plano, uma agressão muito forte ao “moço de boa família”. Sexo era liberado, uma forma de tornar o corpo livre para experimentar aquilo que a sociedade desejava, mas ao mesmo tempo negava. As drogas eram símbolo da libertação dos sentidos, uma forma de hedonismo libertário.

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Até eu sou mais rockstar que seus ídolos.

Contudo, conforme o rock ganhou o status de “gênero culto”, com seus artistas cada vez mais técnicos, suas temáticas cada vez mais vazias e seu distanciamento das camadas mais pobres, foi também galgando posições dentro de uma classe média que passou a consumir o estilo como se fosse algo “acima” do popular.

Ora, o rock é parte da música popular, assim como o sertanejo, o forró e mesmo a música pop. Ele nasceu para ser ouvido e absorvido por todos. Mesmo que ele se valha de vez em quando de elementos da música erudita, nunca será parte dela. Mas ser ouvinte de rock traz a carga de superioridade, uma vez que sua complexidade rítmica, suas letras cada vez mais “poéticas” e “profundas” prescindem que seu ouvinte tenha de ter um “conhecimento superior” para compreendê-las. Quem não curte é taxado como uma pessoa incapaz de compreender a complexidade da melodia e da música.

Somebody told me

You had a boyfriend

Who looked like a girlfriend

That I had in February of last year

It's not confidential

I've got potential

Essa letra do The Killers mostra o quão “densas” são as letras dessa juventude criada a base de suco de nectarina assistindo episódios do He-Man. Não que todas as músicas de rock precisem ser voltadas ao protesto social, mas agora parece que o gênero se transformou numa caricatura daquilo que fora antes.

E o Funk preenche este nicho. O nome do artigo, aliás, é uma sugestão dada por um grande amigo meu. Valeu mesmo Ramon, a ideia de que o rock vai se perdendo aos poucos é deplorável. Os fãs se tornaram uns chatos insuportáveis que, na sua maioria, só sabem louvar seus artistas como a mais perfeita criação terrena.

O funk é sim o novo punk. Não existe um meio termo para ele: ou as pessoas curtem ou odeiam e isto é maravilhoso. Não existem quem goste “mais ou menos”, impondo ao seu ouvinte um posicionamento favorável ou contrário.

Ele também vai falar de sexo. Ele é um tabu muito grande em nossa sociedade, que reprime nossos desejos e coloca-o como algo pecaminoso e proibitivo. É a forma de afirmar o quanto essas pessoas, como a Valeska Popozuda, tem controle do seu corpo e não se envergonham dele. Trazem nesse meio um discurso de que você é dono ou dona do seu próprio corpo e tem desejo ao prazer, ao orgasmo, a uma boa trepada.

Esse mesmo estilo deu voz às mulheres, que podem colocar para fora seus desejos e suas motivações. Não mais aquela mulher do tipo “donzela dona de casa”, como apregoada em muitas bandas com mulheres hoje. É um feminismo indireto, sem pretensões de ser “social”, mas sim falar para outras mulheres que elas podem sim ser donas de seus corpos e de seus prazeres. Que elas podem transar com todo mundo que desejarem e que podem se impor numa sociedade patriarcal.

E existe o lado politizado, que luta contra a opressão, a homofobia, o discurso de extrema direita, além de apoiar causas como o feminismo. Solange tô Aberta, Anarcofunk e o K-trina Erratik buscam com suas músicas levantar questões como o papel do homossexual na sociedade, a luta contra o capitalismo e contra os discursos de ódio e a revolta contra o Estado. Promovem letras que possuem uma carga elevada de filosofia e de humor, como nesta música e nesta daqui.

Certa vez, um senhor chamado Dave Mustaine solta esta pérola, indo parar na Folha de São Paulo: “Minhas letras politizadas surtiram efeito nos fãs”. Espera um pouco? Letras politizadas, vindas de um cristão que se recusa a tocar com bandas “satânicas”, que apoiou a eleição do Bush e arrumou briga com o líder do Ministry. Este artigo fala por si só… Ou seja, para alguns artistas do rock, falar sobre política é apenas se limitar a “falar mal da ONU”, ou ainda “Falar de guerras e de mortes”.

Com as mudanças das questões sociais, as bandas de rock abandonaram esse lado contestador, ficando muito limitado a alguns trabalhos do meio underground. É como disse de forma brilhante o Pedro Belzebitch, numa entrevista:

“Perdoe-me se estou fugindo muito do contexto da pergunta, mas diante de situações como estas é tão cansativo ficar discorrendo sobre as críticas verborrágicas e as opiniões sintéticas do underground burguês brasileiro ou europeu (bocejos!)… Não tenho muita paciência pra essa galera que se acha “cult” porque vive com aquela cara de cu azedo, criticando a tudo e a todos. Ocupar a posição de quem julga é bem confortável, é fácil criticar alguém está se expondo, difícil é ir pra pista, dar a cara a tapa!”

Este é o espírito punk que hoje o funk incorporou. Dar a sua cara a tapa, defender com unhas e dentes o direito de fazer arte e, acima de tudo, levar consigo o discurso de uma comunidade que sofre e que tem desejos de mudança. O gênero jamais vai ser algo que proponha uma mudança radical como um todo, mas hoje possui aquilo que falta ao rock atualmente: atitude!

 

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