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Sexo, drogas e rock’n’roll: quando o rock se tornou música de bunda mole

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Havia um tempo em que o lema de quem curtia rock era “sexo, drogas e rock’n’roll”. Tem até uma música do Sleaze Vice com esse nome. Entretanto, temos hoje justamente o inverso, temos hoje uma galera, em qualquer esfera que se denomine rock, recriminando qualquer coisa do tipo.

Tem um texto (que pessoalmente sinto inveja de não ter feito antes) que retrata bem essa situação, indo da própria postura dos artistas, que se tornam cada vez mais avesso a valores tradicionais. Por exemplo, uma geração inteira de bandas indies que se alinham ao que se espera de jovens artistas: arrumadinhos, bonitinhos, com letras sobre garotas, pseudo-depressão etc. Não que eu ache isto um ponto negativo, a salientar. A qualidade lírica delas vai pro ralo em detrimento de algo fácil de ser mastigado e aceito.

Pessoalmente não posso culpar somente as bandas por serem assim tão certinhas e tão perfeitas aos olhos dessa molecada. Talvez falte a sujeira que tinha uma música do Sarcófago, a despeito da superficialidade dela.

I ever hear a voice

A voice that is my sign

Sex, drinks & metal

The destiny of my life!

Sarcofago: Sex. Drinks and Metal

De verdade eu duvido muito que uma música resuma tanto quanto era a ideia de sexo, drogas e rock’n’roll. A ideia de viver intensamente sem se guiar pelo que era certo dentro da sociedade. Não que, claro, você obrigatoriamente devesse se drogar ao ponto da overdose, transar com todo mundo e somente ouvir rock. Na verdade era um lema de vida de ir contra certas imposições bestas que eram colocadas para ti. Ou seja, transgredir as regras que se opunham à liberdade.

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Barba é o novo cabelo comprido.

A ideia do rockstar drogado, satanista, vestindo roupas rasgadas e saindo com todas as mulheres era a antítese do modelo social de homem de bem. Quebrar tudo por onde passasse, num ímpeto de destruição representava, evidentemente, o rompimento dos limites. Dentro de outras cenas, como a gótica, a morbidez, o semblante de seriedade misturada com sarcasmo e o deboche eram outras formas de contestação. O Bauhaus, sem precisar seguir o estereótipo de rockstar, conseguiu mostrar uma via mais irônica ao contrastar aquele ar “antiquado” e de mau gosto, retirado daqueles filmes de terror que estavam em baixa na década de 80.

Mas hoje temos justamente o contrário de tudo o que se apregoou. Seja por interesses do próprio mercado, que transformou o rock e suas vertentes num produto, seja porque seu público passou a se alinhar com essas ideias de segurança e de “bom mocismo”, o que temos é gente que se preocupa em:

· Dizer que o rock (em qualquer vertente) é o único estilo culto do mundo;

· Massacrar quem é fã de outras coisas igualmente populares;

· Falar mais mal daquilo que não gosta do que daquilo que curte;

· Enxergar a si mesmo como um indivíduo superior frente aos outros não-iniciados;

· Ser extremamente pedante, idiota e persistente na defesa do seu gosto.

Como se não bastasse, isto tem como resultado uma geração de imbecis que não procuram mais no rock um escape para a pressão da sociedade estática e imutável. Buscam porque ele se tornou mais um produto a ser consumido, numa embalagem bonita, de “difícil” acesso e que somente os selecionados têm acesso. Quase como um manjar sagrado dos deuses, que tirará esses sujeitos da mediocridade do populacho.

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Até eu sou mais rock’n’roll que vocês

E não faltam argumentos para apoiar estas imbecilidades. Coisas como “estilo que exige muita técnica”, ou “letras que são profundas”, ou ainda que “fazem críticas à guerra e ao governo corrupto”. Isto não é sinal de superioridade no rock e nunca houve uma preocupação em soar como algo complexo e intrincado. Elevam o gênero (em qualquer formato) ao status de música erudita, criada por meio de estudos e experimentos, alinhada com propostas estéticas de uma determinada corrente artística. A música popular, ao qual o rock se coloca, nunca foi assim. Ele, aliás, tem um poder de absorver coisas de outros gêneros para si, mas sem perder a sua identidade como algo popular.

Vamos ser bem francos: que show lota mais, o da Valeska Popozuda ou do Iron Maiden? Ao responder esta pergunta, você vai entender qual gênero é o mais popular do mundo. E por isto mesmo que hoje ele também se tornou o que é hoje: algo voltado a quem tem pensamento de classe média. Por isto não existe mais transgressão ou o desejo de ir contra o status quo. Não que TODAS as bandas devam fazer isto, sempre vai ter aquele espaço para quem quiser fazer algo mais comportado. Liberdade é poder escolher o que quer fazer e não ser obrigado a soar igual a todas as outras.

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A nova combinação: punheta, toddyinho e rock bem comportado

Vejo, por exemplo, no público gótico, uma aversão a mulheres que se encaixem naquele padrão de libertina. Tem até um termo para isto: pirigótica. E qual o problema nisto? Qual o problema de desejar sexo e se sentir desejada? No público de rock em geral vemos frases como “aquilo é ruim porque só tem pornografia”, “ai, credo, ela é oferecida” ou, pasme, coisas como “música é aquela que mexe com a sua cabeça, não com a sua bunda”. Nem falarei do metal para a coisa não ficar ainda mais feia. Mas sinto um tremendo asco quando vejo alguém criticando algum gênero por ele falar de sexo ou de sacanagem e adorar ESTA música aqui:

The time to hesitate is through

No time to wallow in the mire

Try now we can only lose

And our love become a funeral pyre

Come on baby, light my fire

Come on baby, light my fire

Try to set the night on fire

Nada contra o The Doors. Jim Morrison se sentiria enojado dos fãs que ele teria hoje. Afinal, ele era um desses que representam o ideal da libertação e libertinagem do rock. Sua música tinha essa coisa de se desvencilhar de certas convenções. Junte a ele os Rolling Stones, David Bowie, The Beatles e ainda coloque neste bolo o começo do heavy metal, do punk, do hardcore e até mesmo da própria música eletrônica. Suas composições não estavam nos conservatórios, mas nos inferninhos lotados e nos pubs esfumaçados, frequentados pela classe trabalhadora. Suas letras não eram poesias complexas feitas por um escritor renomado. Suas composições não eram baseadas numa profunda análise social. Eram uma forma de diversão, a própria subversão era um deboche, uma brincadeira. O engajamento político do punk, o “satanismo” do metal, o ar decadentista do gótico, tudo isto foram ramificações e evoluções naturais de seus respectivos alinhamentos ideológicos e seu público acompanhava isto.

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Créditos: Taylor

Hoje quem faz esse papel indiretamente é o funk, o sertanejo e algumas composições populares. Evocam a sexualidade, a sensualidade, o movimento livre do corpo, a liberdade de escolha, o desejo em detrimento ao social. Isto tudo, claro, sem nenhuma intenção de soar como contraventor. Existe muito mais contravenção e luta contra os valores morais de família e Estado numa música do Mr Catra do que em toda a discografia do Imagine Dragons. Seus fãs falam mais abertamente sobre sexo do que quem ouve um Motorhead hoje. E estamos falando de duas pessoas altamente ligadas a questão do “foda-se a sociedade conservadora”. E seu público parece não se importar com este tipo de “transgressão”. Sem contar que existem grupos como o Anarcofunk, o Solange to Aberta e o K-trina Erratik que trazem um misto de humor com crítica social e discurso de transgressão, aliados ao funk. Até mesmo porque há canções como Dama de PauSou passiva mas meto bala e Bixa Pobre.

Não quero dizer que todo mundo tenha de ser transgressor. A liberdade está em poder ser o que você quiser. Isso cria variedade. E é o que falta em nosso meio atualmente.

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