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Tudo que você precisa saber sobre música industrial

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Throbbing Gristle

O gênero chamado industrial tem mais de quarenta anos de existência, sendo mais antigo que o próprio heavy metal. Mesmo com tanto tempo de existência, ainda existem pessoas e grupos que insistem em propagar bobagens sobre o estilo musical, com afirmações bastante categóricas.

Isto é normal, visto que, infelizmente, existem poucas informações sobre o assunto e, quando muito, ela está em língua estrangeira. Os livros e boa parte do material de consulta e estudo sobre o assunto, embora bastante vasto, ainda é restrito a um grupo muito pequeno, assim como o próprio industrial. Para sanar este problema, organizamos aqui um artigo com diversos questionamentos sobre o gênero e também alguns erros bem frequentes que aparecem vez por outra.

  1. O que é industrial?

Em linhas gerais, é a música experimental surgida na metade dos anos 70, que incorporou muito de gêneros como musique concrète, krautrock, música de vanguarda etc. Pertence ao gênero da música popular, embora de aproprie de diversas nuances da música erudita experimental. Para mais detalhes, recomendo ler este artigo.

  1. Quais os gêneros derivados do industrial?

Falar em “derivados” é algo bastante complicado. O ideal é dizer que eles se relacionam por manterem certos aspectos ligados ao experimental e a contracultura, pois muitas vezes existe um distanciamento entre esses grupos do chamado post-industrial. Então, dentro da mesma raiz, temos o EBM / Industrial Dance, Neofolk (e ramificações), Martial Industrial, Dark Ambient, Noise, Power Noise / Rhytmic Noise, Power Electronics, Death Industrial, Industrial Hip Hop, Electro-Industrial, Industrial rock / metal, drone metal e vez por outra surgem artistas que mesclam coisas bastante pitorescas, como o Danger Hilton, que mistura industrial com reggae.

  1. Então o industrial forma uma subcultura, é isto?

Não existe subcultura dentro do industrial e em nenhum movimento post-industrial. Isto enfatiza-se pelo aspecto da contracultura, uma vez que tudo que se mantém dentro dos gêneros associados vai contra a ideologia dominante e busca uma ruptura com as formas convencionais de pensamento e de expressão artística.

Normalmente o que acontece é que quando uma pessoa que pertença a algum grupo que tenha uma preocupação com uma subcultura é a de tentar ver tudo como subcultural. Este é um erro muito grave, uma vez que um dos pilares do industrial é, acima de tudo, não ficar limitado aos ditames sociais. A subcultura se apropria de visões e formas de expressão para se distanciar do modo de vida “comum”, mas não busca romper com ele. É uma forma de escapismo e uma reafirmação do eu, do contrário da contracultura, que é a destruição e a reintegração do ego frente a uma sociedade estatizada. Para saber mais sobre a contracultura, este texto é bastante elucidativo. E sobre a subcultura, leia este material.

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  1. Por que RAMMSTEIN, PSYCLON 9, COMBICHRIST etc. não são grupos de música industrial?

Existem dois pontos que grupos de metal industrial e do chamado “dark electro” não podem nunca pertencer ao gênero. Em primeiro lugar, por mais ríspido que seja o som deles, ainda sim está, dentro da construção estética, reproduzindo uma música feita para ser comercializada. Segundo, esses grupos têm um público-alvo, como góticos e headbangers, que pertencem ao establishment. São associados a gravadoras e selos, possuem marketing que os direciona aos seus ouvintes e, acima de tudo, apelam para a imagem do artista de uma forma fetichista, onde a música entra em segundo plano.

  1. Mas você disse que o metal industrial faz parte do post-industrial…

Esta é uma das mais controversas questões. O que acontece, de fato, é que existem poucas bandas rotuladas como rock e metal industrial que, de fato, são bandas com marcas de industrial. Isto se dá tanto pelas temáticas das letras, pelas posturas dos músicos, pela forma como essas músicas chegam ao ouvinte etc. De modo simplificado, se existe um apelo estético maior do que outras questões e/ou é um grupo que usa uma base eletrônica para se rotular como “industrial”, existe uma grande possibilidade da banda não fazer parte do industrial.

Como exemplos de grupos de rock/metal industrial que não fazem parte do industrial: CELLDWELLER, DEATHSTARS, DOPE, GOTHMINISTER, HANZEL UND GRETYL, MARILYN MANSON, MALDITA, MUSHROOMHEAD, POWERMAN 5000, OOMPH! (fase atual) etc. Exemplos de bandas de rock/metal industrial que fazem parte do industrial: BIZARRA LOCOMOTIVA, DIE KRUPPS, GODFLESH, KMFDM, HIERONYMUS BOSCH, LAIBACH (alguns trabalhos), MINISTRY (sobretudo após o álbum “The Mind Is a Terrible Thing to Taste”), NAILBOMB, NINE INCH NAILS, PIGFACE, SKREW, THE ELECTRIC HELLFIRE CLUB, ULVER (a partir do “Themes from William Blake’s The Marriage of Heaven and Hell”), entre outras.

  1. Mas o que é esse post-industrial?

Post-Industrial se refere a todos os gêneros surgidos depois das primeiras bandas de industrial e das primeiras bandas da Industrial Records. Não é um gênero propriamente dito e serve apenas para colocar toda a produção posterior aos pioneiros da música industrial.

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  1. Mas eu li num site sobre subcultura que o industrial e o EBM fazem parte da música dos góticos…

Por mais que afirmem o contrário, nada dentro da música industrial faz parte de qualquer tipo de “subcultura”, seja ela com os góticos, os headbanger e todo o resto. O gênero (e suas ramificações) por si só constituem apenas pequenas cenas ou grupos de pessoas que gostam da mesma proposta. Não existe subcultura dentro do industrial e tampouco ele precisa se juntar a outros grupos. O seu surgimento é para contestar essa necessidade de agrupamento e de integração à cultura dominante, diferente do que ocorre com as chamadas subculturas.

  1. Mas me disseram que existem os rivetheads…

Os rivetheads surgiram como um grupo de pessoas que curtiam EBM, rock industrial e electro-industrial, gêneros mais dançantes e mais acessíveis às pessoas. A forma de se vestir (o dresscode, por assim dizer) era, acima de tudo, para mostrar o protesto contra os governos, a imposição da norma por meio do uniforme e a fetichização do militarismo. Inclusive é um deboche contra a sociedade cada vez mais tecnológica e com menos espaço para os ideais de liberdade.

Contudo, depois de um tempo, algumas pessoas de outros grupos, como os góticos, passaram a curtir alguns aspectos desse tipo de indumentária e, por frequentarem os mesmos espaços, algumas pessoas passaram a associar o rivethead com os góticos, mesmo tendo diferenças gritantes entre ambos os grupos.

  1. Mas eu vejo em algumas páginas no Facebook aceitarem o Dark Electro como industrial…

Infelizmente, isto não quer dizer muita coisa, apenas que possivelmente o dono da página em questão não sabe exatamente o que é industrial. Mas esta confusão é fácil de ser compreendida.

Em países como a Alemanha, qualquer banda eletrônica não-mainstream que não seja considerada synthpop ou darkwave é chamada de industrial. Neste caso seria, de forma bastante simplificada, um agrupamento de grupos com som eletrônico mais pesado, com batidas mais velozes e vocal modificado eletronicamente. Selos como a Out of Line e a Alfa Matrix ajudam a difundir a ideia de que qualquer eletrônico mais “pesado” possa ser chamado de industrial, referindo-se somente a grupos eletrônicos e, vez por outra, trabalhos de EBM e Electro Industrial.

Deste jeito, aliado a pouca divulgação de materiais em língua portuguesa, aqui no Brasil calhou de algumas pessoas associarem eletrônico ao industrial, sobretudo dentro do meio gótico e headbanger. Por isto tem gente que quando fala em industrial pensa no RAMMSTEIN, no COMBICHRIST e no NACTHMAHR, por exemplo. E nenhum deles está próximo de remotamente ser chamado de industrial.

Existe também um outro fator que leva a este problema: bandas de electro-industrial que vão tornando seu som mais acessível, sobretudo entre os góticos. Isto acontece por uma necessidade de mercado, onde boa parte dos grupos irão fazer sua música com influências de dance music, hard techno, trance, techno rave e synthpop, sendo mais fácil de ser assimilada pelo grande público ou por uma parcela grande do underground, como aconteceu com o SKINNY PUPPY, LEATHER STRIP, DIE FORM, SUICIDE COMMANDO e quase toda a leva de bandas antigas de electro-industrial.

Death in June

  1. Então o Death in June é nazi?

Não, assim como quase todos os projetos dentro do meio industrial que se valem de imagens do nazismo. Grupos como GENOCIDE ORGAN, LAIBACH e mesmo o THROBBING GRISTLE sempre utilizaram de imagens ligadas ao regime de Hitler com o intuito de chocar as pessoas, criar um mal-estar com o pior lado do ser humano, como uma forma de deboche e de contra-discurso.

Entretanto, é sabido que existem sim projetos dentro do meio industrial que são nazistas ou, melhor dizendo, nacionais socialistas e supremacistas. O GENOCIDE LOLITA, por exemplo, é comandado por um supremacista branco e o DEATHKEY, assumidamente nazista. Eventualmente aparece um grupo ou outro de neofolk/martial industrial que seja ligado com essas ideias de forma ativa, mas não são comuns.

  1. Eu curto um estilo muito foda, o Harsh EBM…

Na fase de apropriação pelos góticos, o electro-industrial passou a receber diversos nomes para continuar a ser enquadrado como EBM, tais como Harsh EBM, Aggrotech, Hellectro, Terror-EBM e outros. Com exceção do Aggrotech, nenhum deles pegou ou fez algum sentido dentro do post-industrial.

Possivelmente este tipo de confusão surgiu em alguns locais da internet, como o Vampire Freaks, onde este tipo de discussão costuma aparecer e onde esses nomes são mais comuns. A bem da verdade, todos eles poderiam ser incluídos na categoria Dark Electro, que fazem mais sentido, por ser uma versão mais “sombria” do electro-industrial.

  1. E o Industrial Dance?

Industrial Dance era, originalmente, um dos nomes dados ao EBM. Com o advento do youtube, passou a designar uma espécie de dança feita por pessoas que se identificam com a subcultura gótica e curtem electro-industrial e Dark Electro. Mas não se trata de nada ligado ao industrial.

merzbow

  1. O que é Japanoise?

Japanoise é uma vertente do noise que começa a surgir no Japão nos anos 80, influenciados pela música experimental e pela cena punk/hardcore de Osaka. O que diferencia a tendência do Jananoise para o noise é a sonoridade mais violenta e as performances, além do uso de temáticas que podem soar estranhas ou grotescas aos ocidentais. Grandes exemplos do gênero são o MERZBOW, HIJOKAIDAN, HANATARASH, CCCCC etc. E caso queira saber mais, leia sobre o japanoise aqui.

  1. Como eu posso classificar as bandas de industrial?

Esta talvez seja uma das tarefas mais difíceis, pois projetos podem cair em duas ou em três categorias distintas sem, contudo, compartilharem coisas entre si. Normalmente, a gente entende que toda a música formada por ruídos e que tenha algum fundo social e/ou político ou que busque alguma forma de discurso livre pode ser encaixada no industrial.

O grande problema reside em que, por exemplo, o noise nem sempre tem conotação alguma que não o próprio ruído. Em termos gerais, isto também o coloca dentro do industrial, uma vez que a música destituída de propósito também é um rompimento com a necessidade da música ser ideológica.

Em linhas gerais, embora sujeito a muitas falhas, você tem o industrial “puro” em bandas como THROBBING GRISTLE e CABARET VOLTAIRE, por exemplo. O neofolk vai aliar muito do folk rock e da música folclórica “orgânica” com grupos como o SOL INVICTUS e o DEATH IN JUNE. O noise vai ser a evolução desse mesmo industrial, com uma ramificação no chamado harsh noise (embora muita gente não adote esta nomenclatura) em projetos como o HIJOKAIDAN, BASTARD NOISE e BLACK LEATHER JESUS. Uma versão mais extrema do noise, que lida com temáticas consideradas extremas e uma musicalidade violenta está aliada ao power electronics, nos controversos projetos WHITEHOUSE, SUTCLIFFE JÜGEND, GENOCIDE ORGAN e CON-DOM. O death industrial é uma versão mais melódica e sombria do power electronics, surgida com trabalhos como o THE GREY WOLVES, BRIGHTER DEATH NOW, ATRAX MORGUE e outros.

Mas mesmo essas classificações não são exatas para todas as ramificações do gênero.

  1. Quais as melhores fontes de informação sobre música industrial?

Por experiência própria, eu sei que qualquer site gótico, seja ele brasileiro ou não, comete um monte de erros ao falar da música industrial. Podem até ser bons como fontes de material para outros gêneros, mas em termos de industrial, falham demais.

Aconselho primeiro aqui no Groundcast, que a gente traz boas informações sobre o gênero. Além deste espaço, recomendo muito a leitura do blog Industrial Music Library, que contem muita informação relevante e algumas entrevistas. Ao final deste texto também tem uma bibliografia para consulta que vale muito a pena ser lida para quem deseja se aprofundar no assunto.

  1. Por onde começar a ouvir música industrial?

Normalmente isto precisa estar atrelado ao seu gosto pessoal. Em geral, comece por THROBBING GRISTLE, PSYCHIC TV, SPK, COIL, EINSTÜRZENDE NEUBAUTEN e os primeiros discos do Die Form. Talvez devesse arriscar algum grupo de EBM ou Electro-Industrial mais antigos, em seus primeiros trabalhos, como o SKINNY PUPPY e o LEATHER STRIP. Com estes trabalhos dá para se ter uma boa introdução ao gênero.

Fontes de pesquisa

Este FAQ não é definitivo e, por isto, requer a sua colaboração para ficar maior e melhor. Para isto, deixe sua pergunta em algum comentário abaixo ou consulte uma destas fontes (de preferência, mais de uma).

Sites

http://undergroundmusiclibrary.blogspot.com.br/

http://heathenharvest.org/

http://coilhouse.net/

http://www.brainwashed.com/

Livros

ATTALI, J. Noise: the political economy of music.  Minneapolis: University of Minnesota Press, 1985.

CONNELLY, C. Concrete, bulletproof, invisible + fried: my life as a Revolting Cock.  London: SAF, 2008.

DEMERS, J. T. Listening through the noise: the aesthetics of experimental electronic music.  Oxford; New York: Oxford University Press, 2010.

HAINGE, G. Noise matters: towards an ontology of noise.  New York: Bloomsbury Academic, 2013.

HEGARTY, P. Noise/music: a history.  New York: Continuum, 2007.

KAHN, D. Noise, water, meat a history of sound in the arts. Cambridge, Mass.,  1999.

NOVAK, D. Japanoise: music at the edge of circulation.    2013.

REED, S. A. Assimilate: a critical history of industrial music.    2013.

RODGERS, T. Pink noises: women on electronic music and sound.  Durham [NC]: Duke University Press, 2010.

ROSS, A. The rest is noise : listening to the twentieth century.  New York: Farrar, Straus and Giroux, 2007.

THOMPSON, D. The industrial revolution.  Los Angeles, CA: Cleopatra, 1994.

Artigos acadêmicos

The future is happening already: industrial music, dystopia and the aesthetic of the machine, disponível em http://ethos.bl.uk/OrderDetails.do?uin=uk.bl.ethos.272629

Exploring The Evolution Of Industrial Music: A Historical And Analytical Perspective, disponível em https://digital.library.txstate.edu/bitstream/handle/10877/4987/VECCHIO-THESIS-2014.pdf?sequence=1.

Industrial Music for Industrial People: The History and Development of an Underground Genre, disponível em http://diginole.lib.fsu.edu/etd/781/

Metal Machine Music: Technology, Noise, and Modernism in Industrial Music 1975-1996, disponível em https://dspace.sunyconnect.suny.edu/bitstream/handle/1951/56018/Hanley_grad.sunysb_0771E_10680.pdf

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