Blood Python: “Há algo fascinante na arrogância de dominar pessoas”

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Blood Python, liderado pelo norueguês M. Horn, é um projeto solo que mescla heavy metal oitentista com atmosferas ocultistas, incorporando influências inusitadas como black metal norueguês dos anos 90, trilhas de jogos retrô e folk do Oriente Médio. Com letras inspiradas em impérios antigos e sacrifícios humanos — especialmente das civilizações mesoamericanas —, seu álbum Thunder City explora a arrogância do poder humano em paralelos históricos e contemporâneos. Em uma entrevista exclusiva, M. Horn compartilha os desafios da criação solitária, os planos ao vivo e sua visão sobre algoritmos e cenas musicais.

Vamos começar esta entrevista com grande estilo! Você poderia nos contar um pouco sobre sua formação musical e como o Blood Python começou?
M. HORN: Antes eu tocava numa banda chamada Tempelheks, que era uma parada mais doom/stoner. Lançamos vários álbuns e rodamos bastante. Antes disso, participei de projetos menos sérios, como punk, black metal e thrash.

O Blood Python surgiu quando o Tempelheks estava acabando. Eu precisava extravazar a criatividade, então pensei em um projeto solo. O estilo e o som do Blood Python foram fortemente inspirados no que eu ouvia na época: heavy metal dos anos 80.

Como você administra a liberdade de criar o que quiser com o desafio de fazer tudo sozinho?
M. HORN: É definitivamente um desafio, mas que fortalece a criatividade. A liberdade de tomar todas as decisões é incrível — algo que todo artista deveria ter. Claro, pode ser meio solitário, sem ninguém pra debater ideias. Mas essa é a essência de um projeto solo: controle total para que o trabalho seja 100% seu. A solidão e a frustração até alimentam a música.

Quais são as partes mais difíceis de fazer música sozinho como artista independente?
M. HORN: A produção! Não tenho formação em mixagem, equalização ou coisas do tipo. A curva de aprendizado é íngreme, e problemas técnicos atrapalham a criatividade. Fora isso, ser independente é um luxo: ninguém cobra expectativas.

A Noruega é mais conhecida pelo black metal e gothic metal. Como é fazer heavy metal estilo anos 80 nesse cenário?
M. HORN: Não faço parte de cenas black ou gótica. Em Oslo, o metal é variado: tem hardcore, doom/stoner… Poucas bandas fazem a vibe anos 80. O crucial é que as pessoas sejam cooperativas e mente aberta — algo raro em outras cenas.

Você descreve sua música como heavy metal com influências dos anos 80. Como a explicaria para alguém que nunca a ouviu? Como desenvolveu seu próprio estilo?
M. HORN: Gosto do termo “heavy metal ocultista”. “Heavy metal” remete aos anos 70/80, e o “ocultista” vem da atmosfera ameaçadora que não era comum no metal da época. Não sei se chamo de “estilo próprio”, porque bebo de referências consolidadas. Mas temos peculiaridades: black metal dos anos 90, trilhas de jogos, folk do Oriente Médio…

Thunder City tem letras cheias de temas ocultistas, mitologia e vibrações sombrias. De onde vem essa inspiração? E, em geral, o que te inspira — na música e na vida?
M. HORN: Várias letras vieram de impérios antigos brutais que surgiram e caíram. Aprendendo sobre eles, encontro temas que casam com o heavy metal. Há algo fascinante na arrogância de dominar pessoas — e isso se aplica ao mundo moderno. No geral, inspiro-me simplesmente por boa música, independente do gênero.

Li que você se inspira muito na história antiga, especialmente nas Idades do Bronze e do Ferro. Há algum evento ou civilização que te fascina particularmente?
M. HORN: Os impérios mesoamericanos influenciaram várias letras. O sacrifício humano é fascinante e combina com o metal. Também estudo as expansões indo-europeias do Neolítico — a falta de registros torna tudo misterioso, o que alimenta a criatividade.

Você acha que plataformas como YouTube e Bandcamp são suficientes para artistas alcançarem o público certo hoje? Pergunto porque algoritmos dificultam que bandas independentes sejam encontradas.
M. HORN: Não ligo para algoritmos. Se as pessoas devem encontrar minha música, elas encontrarão. Claro, digo isso porque não vivo da música. Para mim, basta criar o que quero e saber que alguém ouve. Se transmitir algo, é lucro.

Sei que o Blood Python não toca ao vivo, provavelmente por ser um projeto solo. Mas você tem planos de levá-lo ao palco algum dia?
M. HORN: Sim! Acabei de montar uma formação. Vamos ensaiar este ano e começar a tocar em Oslo. Veremos até onde vai, mas é bom tocar com pessoas novamente.

O que o Blood Python te ensinou como artista e como pessoa? Quais foram (e ainda são) os maiores desafios para manter o projeto?
M. HORN: A autocrítica é feroz. Todo artista sofre com isso. Talvez faça parte do processo: a dúvida gera mudanças positivas. Com o tempo, aprendi a dizer “foda-se!” e fazer o que sinto.

Somos do Brasil aqui no Groundcast, então preciso perguntar: você conhece alguma banda brasileira?
M. HORN: Não sou muito familiarizado, mas vi Cavalera Conspiracy ao vivo em Oslo ano passado — foi incrível! Cresci ouvindo jazz, então lembro da Astrud Gilberto… voz fantástica.

Muito obrigado pela entrevista! Agora é sua chance de deixar uma mensagem para nossos leitores. Vamos lá!
M. HORN: Ugh ugh pølse med lugg! 1

Links Relacionados

https://bloodpython.bigcartel.com/

https://bloodpython.bandcamp.com/

1. "Pølse med lugg" (literalmente "salsicha com franja") é uma expressão nonsense norueguesa mantida como registro do humor descontraído do artista.

Editor, dono e podcaster. Escreve por amor à música estranha e contra o conservadorismo no meio underground.