Cold in Berlin: “Talvez toda arte seja inerentemente política”

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Eu sou um grande fã de darkwave e fiquei feliz em saber que iria entrevistar o Cold in Berlin, grupo que conheci há pouco, mas que gostava muito da fusão do gótico com o metal. Nessa entrevista a banda britânica relembrou sua trajetória, desde os primeiros passos como Death Cigarettes em York até o amadurecimento em Londres, passando por uma evolução sonora que começou no pós-punk/darkwave e chegou à intensidade do doom e do metal.

Primeiro, é uma honra entrevistar vocês do COLD IN BERLIN, banda que venho acompanhando há um tempo. Para começar, contem um pouco sobre como vocês começaram na cena musical, em quais bandas/projetos estiveram envolvidos e coisas do tipo?

ADAM (GUITARRA): Eu e a Maya começamos a fazer música juntos quando estávamos na universidade. Gravávamos canções anti-folk em casa só para ver se conseguíamos. Mas logo quisemos fazer um barulho mais alto, então começamos a tocar com amigos em festas de casa.​

A banda começou em York como Death Cigarettes e depois virou Cold in Berlin quando vocês se mudaram para Londres. Como essa mudança de nome e cidade influenciou a identidade musical e lírica da banda?

ADAM: Fez a gente amadurecer. Death Cigarettes era sobre diversão punk e selvagem. Aquele tipo de coisa que você só consegue fazer quando é estudante. Em Londres, aprendemos rápido que, se você não coloca as coisas nos eixos, vai acabar na rua.​

Quando ouvi vocês pela primeira vez, adorei o álbum de 2010, “Give Me Walls”, que tinha uma pegada de Siouxsie And The Banshees; depois, em “The Comfort of Loss & Dust” (2015), rolou uma guinada para um som mais metal. Como foi essa mudança de direção musical?

MAYA: Nunca quisemos fazer o mesmo disco — nosso som evoluiu naturalmente entre os álbuns, e tomara que cada um seja diferente o bastante para ser interessante, mas ainda muito CiB.​

ADAM: Apenas mais uma progressão natural. Entre esses discos tem o And Yet (2012), que foi mais gothic rock do que pós‑punk. Depois de 2012, a gente passou a ouvir mais Sabbath e Electric Wizard — duas bandas inglesas que nunca jogaram pelas regras — e curtimos tocar músicas mais lentas e pesadas.​

Li que vocês ouvem Black Sabbath e Electric Wizard. Quem mais influencia vocês musicalmente?

LAWRENCE (BAIXO): A gente ouve de tudo, e isso aparece nos discos que fazemos. Sabbath e Wizard tocam direto na van, mas, no outro extremo, ouvimos muitos artistas eletrônicos como The Knife. Ao fazer este álbum, falávamos de krautrock o tempo todo — a ideia de jogar fora estruturas e gêneros tradicionais e simplesmente experimentar nos atraiu muito.​

Aliás, ouvi os singles novos e, apesar da abordagem mais metal, há muitos elementos da fase darkwave. Como vocês classificariam a música de vocês hoje?

LAWRENCE: É difícil classificar. Estamos usando sons emprestados do doom metal para fazer coisas que não têm muito a ver com metal. Tem darkwave, gothic, krautrock e pós‑punk misturados, mas, no fim, é música para fãs de sons escuros e pesados.​

Vocês comentaram que pararam de tocar ao vivo pela primeira vez para focar exclusivamente na escrita de “Rituals of Surrender”. Como foi essa experiência? O isolamento criativo ajudou ou atrapalhou o processo?

ADAM: Isso aconteceu porque recrutamos um novo baterista, o Alex, que hoje é nosso baterista fixo e o que está há mais tempo. Conseguimos um espaço de ensaio por um ano e passávamos longas horas lá, improvisando riffs lentos e pesados e criando paisagens longas e atmosféricas de doom.​

Li uma entrevista/resenha de “Rituals of Surrender” e vi que vocês recomendam muitos livros feministas para complementar as músicas, especialmente em temas como sexualidade e amor. Quanto esse tipo de literatura influencia a música de vocês?

MAYA: A literatura feminista definitivamente me inspira e me ajuda a entender o mundo como mulher. Então, naturalmente, isso aparece na nossa música. Sempre quis que o CiB refletisse as histórias e a força das mulheres e contasse histórias a partir da perspectiva feminina, longe do olhar masculino. “Wounds” faz isso para mim, então fico feliz em compartilhar.​

Seguindo a questão anterior, já faz um tempo que algumas pessoas dizem com todas as letras que “música e política não devem se misturar”, o que eu discordo. Embora eu não seja a pessoa mais vocal com a frase “tudo é político”, acredito que bandas e canções podem ter um papel político importante. Como vocês veem essa relação entre arte e política?

ADAM: “Rituals of Surrender” foi gravado em meio aos protestos ambientais de 2019. Naquela época, política não era algo abstrato. Estava na nossa cara. Acho que isso inspirou a faixa “Sacred Ground”, de Rituals.​

LAWRENCE: Talvez toda arte seja inerentemente política, não sei como você removeria isso. As temáticas das nossas músicas costumam ter tons bastante políticos, mas focam em experiências e histórias pessoais. Experiências específicas podem ser mais poderosas de se relacionar do que uma raiva vaga “contra o sistema”.​

“Wounds” marca uma nova era para a banda. Para onde vocês querem levar o som do Cold in Berlin daqui para frente? Vão continuar explorando esses elementos de krautrock e eletrônica?

ALEX (BATERIA): Sinceramente, é uma conversa que ainda não tivemos. Estamos totalmente no modo “Wounds” — montando um set novo e cuidando de muita parte administrativa não musical. Então não tem sobrado muito tempo para pensar em composição. Mas tem mais música nova a caminho.​

LAWRENCE: Vale tudo! Acho que já provamos que não precisamos escrever dentro de gêneros para produzir nossa melhor música.​

Somos um site de música brasileiro e queríamos saber se vocês conhecem ou gostam de artistas do Brasil.

ADAM: Sou um garoto do metal dos anos 90, então Sepultura tem um lugar especial no meu coração. Foi legal conhecer o Igor Cavalera enquanto gravávamos o nosso EP “The Body Is The Wound”. O produtor do EP, Wayne Adams, tem um projeto com o Igor — o PetBrick. O Wayne e o Igor também apresentaram para a gente o Deafkids — banda incrível.​

Queria perguntar também: que artistas vocês recomendam e o que têm ouvido ultimamente?

Fizemos uma playlist no Spotify para isso! (https://open.spotify.com/playlist/6fSIX8KA6kOAqVfu9XJF3W?si=82f69f8d4b674a10)[1]

Agradeço muito a oportunidade de entrevistá-los. Este é o espaço de vocês para deixar uma mensagem aos nossos leitores. Vamos lá.

MAYA: “Wounds” é um chamado para a escuridão; a força e a estranheza que carregamos nos ajudam a nos encontrar e a elevar uns aos outros. O barulho é o lugar que chamamos de lar. Espero que vocês amem o álbum como as feridas que carregam — o que você carrega, te fortalece. Toquem as músicas alto e sintam-se acolhidos em casa.

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Editor, dono e podcaster. Escreve por amor à música estranha e contra o conservadorismo no meio underground.