Gótico Conservador Não Faz Sentido

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Parece piada, mas volta e meia surge a ideia equivocada de que o gótico pode ser conservador ou “apolítico”. Essa visão ignora completamente as origens históricas, filosóficas e culturais da subcultura gótica, que nasceu da resistência contra governos conservadores e da busca por identidade individual e contestação social.

O fenômeno que chamamos de “gothsplosion” levou a estética gótica para o mainstream, esvaziando seu significado cultural, artístico e político, reduzindo-a a mera estética superficial em produções televisivas, moda e até no pop.

A incompatibilidade entre o movimento gótico e o conservadorismo político e social é clara. Enquanto o conservadorismo defende tradição, instituições como família e igreja e a manutenção do status quo, o gótico nasceu justamente para desafiar a normalidade, o conformismo e a ordem estabelecida.

Origens políticas da subcultura gótica

No final dos anos 1970, o gótico surgiu na cena pós-punk britânica, como resposta à frustração com o governo conservador de Margaret Thatcher. Jovens desencantados adotaram a música melancólica e as imagens teatrais de bandas como Siouxsie and the Banshees, Bauhaus, Joy Division e The Cure, usando maquiagem, roupas escuras e androginia como expressão artística e política.

Essa estética representava uma crítica ao neoliberalismo, ao individualismo predatório e à normalização social, transformando a melancolia, a escuridão e o macabro em formas de resistência.

Por que conservadorismo e gótico não combinam

O individualismo gótico busca questionar e desconstruir normas, enquanto o conservadorismo valoriza a manutenção da tradição e se mostra contrário a mudanças sociais. O gótico é diverso e aberto à experimentação de gênero e sexualidade, sendo um espaço acolhedor para pessoas LGBTQIA+. A androginia e figuras como Rozz Williams (Christian Death) desafiavam a hipermasculinidade já nos anos 80, tornando a subcultura um refúgio para identidades desviantes.

Movimentos como “Goths for Trump” ou casos como Brandon Pybus (Sonsombre) apoiando pautas de extrema direita são exemplos de apropriações descontextualizadas da estética, sem ligação com as raízes políticas do gótico.

Góticos contra o conservadorismo

Apesar dessas distorções, muitos artistas resgatam o caráter político da subcultura. Sean Brennan (London After Midnight) dedica sua música a pautas progressistas, Suzi Sabotage lançou a faixa “Nazi Goths, Fuck Off” denunciando a extrema direita, e Andrew Eldritch (The Sisters of Mercy) já criticava George H. W. Bush em “The Vision Thing”.

Mais recentemente, a coletânea Goths for Palestine reuniu nomes como Vision Video, TRAITRS, Horror Vacui e Leather Strip, reafirmando que o gótico é resistência contra a opressão e abraça a diversidade em oposição ao conservadorismo.

Conclusão

Não existe “gótico conservador”. Ou se defende uma cena que valoriza diversidade, questionamento e resistência a estruturas de poder opressoras, ou se reforça uma ideologia incompatível com esses pilares fundamentais.


Editor, dono e podcaster. Escreve por amor à música estranha e contra o conservadorismo no meio underground.