David Tibet, a mente por trás do Current 93, utiliza a complexa figura de Kalki, o décimo avatar de Vishnu, para desconstruir e subverter a simbologia fascista. Em sua canção “Hitler as Kalki”, ele recontextualiza uma das figuras mais odiadas da história, não para glorificá-lo, mas como um avatar da destruição divina. A proposta é mostrar como essa força é invocada para purificar o mundo, aniquilando ironicamente as próprias ideologias de ódio que representa, em uma perspectiva declaradamente antifascista.
Eu me baseio numa análise muito boa que li há bastante tempo na internet, mas que, infelizmente, nunca mais consegui encontrar. Então aqui fica minha homenagem a esse texto e, com isso, vamos conhecer primeiro quem é o Current 93.
Fundado em 1982 por David Tibet, o Current 93 é um projeto musical dedicado à exploração da escatologia, do esoterismo cristão e do misticismo oriental. A sonoridade do grupo, que transita entre o psicodélico e o folclórico, é o veículo para temas apocalípticos e reflexões sobre a natureza do mal no mundo.
A base intelectual de Tibet vem dos estudos de figuras como Aleister Crowley e Kenneth Grant. A própria “corrente 93” é uma referência direta à Thelema de Crowley, onde 93 é o valor numérico das palavras Thelema (vontade) e Agape (amor), simbolizando a máxima: “Faze o que tu queres há de ser o todo da Lei”.
Thunder Perfect Mind: O Ponto de Virada
Em 1992, o Current 93 lançou uma de suas obras-primas, Thunder Perfect Mind. Este álbum aprofundou a exploração de temas gnósticos e apocalípticos, consolidando o gênero “Apocalyptic Folk”. Foi com este disco que o projeto abandonou o ruído industrial de seus primórdios para abraçar uma sonoridade mais acústica, mantendo a densidade e a complexidade lírica que se tornariam sua marca registrada.
Savitri Devi e o Hitlerismo Esotérico
Para entender por que uma canção que se apropria do esoterismo fascista não é, de fato, fascista, é crucial conhecer duas figuras centrais: Savitri Devi e o conceito de hitlerismo esotérico.
Nascida Maximiani Portas na França, em 1905, Savitri Devi foi uma das principais teóricas do esoterismo fascista. Ela fundiu o misticismo hindu com a crença em Hitler como um avatar divino. Ao se mudar para a Índia na década de 1930, Devi buscou nas tradições védicas uma base para suas crenças antissemitas e ultranacionalistas, conferindo um verniz religioso à ideia de hierarquia racial.
Savitri Devi focou-se no mito do Kali Yuga, a era cósmica final e mais degenerada, caracterizada pelo declínio moral e espiritual. Segundo a crença hindu, este período termina com a chegada do avatar Kalki, uma figura de destruição e renovação que restaura a ordem e inaugura uma nova era de ouro (Satya Yuga).
Nos textos sagrados, como o Mahabharata, Kalki é o décimo e último avatar de Vishnu. Ele é descrito como um guerreiro divino em um cavalo branco, empunhando uma espada flamejante para erradicar o mal e purgar o mundo da corrupção.
Com base em uma leitura seletiva das escrituras, Savitri Devi reinterpretou essa profecia, posicionando Adolf Hitler como o avatar Kalki. Em sua obra The Lightning and the Sun, ela o classificou como um “Homem contra o Tempo”, destinado a lutar contra a decadência do Kali Yuga. Para ela, os judeus personificavam as forças da escuridão que precisavam ser aniquiladas para dar lugar a uma nova ordem ariana.
Essa visão transformou o nazismo de um projeto político fracassado em uma fé escatológica, garantindo sua sobrevida em grupos neonazistas e na alt-right contemporânea.
A Ressignificação Antifascista do Current 93
É nesse complexo cenário que o Current 93 se apropria e ressignifica o conceito de “Hitler como Kalki”. O objetivo de Tibet é subverter a narrativa fascista, sem deixar ambiguidades sobre sua posição.
A carreira de Tibet cruzou com a de Douglas Pearce (Death in June), uma figura controversa pelo uso ambíguo de estética nazifascista. Nesse contexto, Thunder Perfect Mind pode ser visto como um rompimento definitivo com essa ambiguidade. O álbum é dedicado ao pai de Tibet, um soldado que lutou na Segunda Guerra Mundial, marcando uma distância clara do fascismo.
A canção “A Song for Douglas After He’s Dead” é um lamento por um amigo que Tibet via como desviado por uma ideologia destrutiva, reforçando a posição antifascista do álbum. Esse amigo, no caso, seria Douglas Pearce, que usava muito da simbologia nazista em seus trabalhos e, com o tempo, também passou a se associar com algumas figuras no mínimo questionáveis.
O método de David Tibet é profundamente pessoal. Ele internaliza grandes narrativas cósmicas, como o Apocalipse ou a vinda de Kalki, e as processa através de seus sonhos, medos e relacionamentos. Seu uso do conceito “Hitler como Kalki” não é um endosso, mas um exorcismo pessoal e artístico. Ele confronta uma ideia que contaminou a cena neofolk e a transforma em uma visão catártica e assustadora da destruição, despida de qualquer romantismo político.
Análise da Canção “Hitler as Kalki”
O cerne lírico da música é a dissolução absoluta. Ao equiparar Hitler e Kalki, Tibet não deifica o ditador, mas o retrata como uma força de aniquilação tão total que colapsa todas as distinções. A estratégia lírica central é a adoção por Tibet da perspectiva na primeira pessoa da entidade Hitler-Kalki. Ele não descreve esta figura; ele torna-se nela, forçando o ouvinte a uma intimidade desconfortável com esta visão de mundo.
And I shall look for Christ / And I shall find him in a bomb-shelter / With his mother and his family / With his brothers and his sisters
Um tema-chave é a perseguição a Cristo. Enquanto Savitri Devi via Hitler como uma força divina, as letras de Tibet retratam-no como um inimigo explícito de Cristo. Esta é a inversão crucial: na estrutura gnóstico-cristã de Tibet, qualquer figura que se afirme como um salvador mundano através da violência suprema e que se oponha a Cristo é, por definição, o Anticristo. O apocalipse retratado nas letras não é de renovação, mas de aniquilação total, um “grande uivo de dor” e um “oceano de sangue” , contradizendo diretamente o propósito do mito original.
And the swastika will spin / And the sun will be black / And the moon will be blood / And the stars will fall down / On the children of God
A iconografia nazi funde-se com imagens apocalípticas clássicas, retiradas do Livro do Apocalipse bíblico. Essa é uma forma não apenas de tornar o nazismo como algo perverso, mas também anticristão, de modo a reforçar o aspecto destruidor, que viria para destruir “os filhos de Deus”.
On a white horse he comes /Blazing sword in burning hand / “Lo, I am become death / The destroyer of worlds”
Aqui há uma fusão bastante pesada da iconografia de que o Kalki chegaria num cavalo branco brandindo sua espada de fogo para destruir a Kali Yuga, junto com uma citação errônea do Bhagavad Gita, citado por J. Robert Oppenheimer após o sucesso da detonação da primeira bomba atômica. Com isso é possível notar que, tal qual o artefato bélico, a destruição do mundo promovida pelo Kalki vai levar a uma completa aniquilação de todas as coisas.
The fire’s turned to blood / The blood’s turned to water /And the water’s turned to what?/ Milk? Piss? Lies? Dust?
A letra questiona a própria substância da realidade, ao refazer os passos do mito do Kalki e demonstra a completa antipatia pelos resultados desse evento apocalíptico. Essa progressão em direção ao detrito e à insignificância revela uma destruição que não purifica, mas aniquila todo o sentido e existência, de modo a tornar a figura mítica uma piada, uma vez que usa a progressão de que o sangue se tornaria água (algo de pouco valor) e essa água iria se tornar leite, urina, mentiras ou pó, mostrando a aniquilação completa desse processo destrutivo.
If we see man at his most bloody / If we see man at his most base / Shall we then and there say / This is not God’s face? / Both are so mingled / And muddied together / To pull them apart / We butcher the essence
Aqui, por meio de inflexões gnósticas, sugere uma visão onde o divino e o demoníaco estão terrivelmente interligados. A destruição é apresentada como um evento cósmico indiferenciado que consome tudo, incluindo Cristo e Deus, tornando impossível distinguir o sagrado do profano no meio da aniquilação. Isso também reforça o quanto a divinização de Hitler traz uma ambivalência contraditória – a imagem de um salvador que, no fim de tudo, não vai salvar nada por, essencialmente, não parte de um processo de renovação.
Oh my dear Christ / Carried broken from sad brown earth / Teeth. Teeth. Teeth. Teeth. Teeth.
A música termina com a repetição de “dentes”, que em muitas culturas simboliza a destruição e, com isso, despoja Hitler-Kalki de grandiosidade. Esta repetição simplifica a ideologia e a poesia apocalíptica, reduzindo o “Homem contra o Tempo” a violência pura. O final simboliza o fracasso da linguagem diante do horror, expondo mitologias de caráter fascista como fachada para a mais pura e irracional aniquilação.
Um Apocalipse Niilista
Enquanto Savitri Devi via Hitler/Kalki como o restaurador de uma era de ouro, a obra de Tibet apresenta um apocalipse niilista. O “salvador” aqui leva à aniquilação total, incluindo o colapso das estrelas, sem nenhuma menção a uma futura restauração. Cristo surge como uma figura passiva ou cúmplice, e a música desmistifica o ideal fascista, expondo-o como um culto à morte.
Com mais de dezesseis minutos, a faixa é uma imersão sonora no caos. A voz de Tibet, como um “profeta no meio de um sonho febril”, guia o ouvinte através do colapso de todas as categorias morais e ontológicas. Com isso é muito notória a confrontação e o incômodo pelo paradoxo que a santificação de uma pessoa tão detestável e, ao mesmo tempo, capaz de destruir toda a existência.
Em “Hitler as Kalki”, a figura histórica não é um agente de renovação, mas um vazio cósmico que consome tudo, incluindo a própria noção de futuro. Essa visão niilista desafia a apropriação esotérica do nazismo, esvaziando-a de qualquer pretensão messiânica.
David Tibet apropria-se da ideologia de Savitri Devi para destruí-la por dentro, retirando todo o encanto dos ideais fascistas e jogando-os em seu devido lugar: para a aniquilação e o esquecimento.



