Não dá para ser alternativo e conservador

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Acredito que não seja novidade para nenhuma pessoa alternativa (gótico, metaleiro, roqueiro, rapper) que pertencer a um estilo que quebra a normalidade não seja bem-visto pelos conservadores. Mas como explicar “góticos por Trump”, “metaleiros conservadores” ou “rappers de direita”? Como justificar que figuras dentro de determinadas subculturas flertam com discursos de exclusão, misoginia, homofobia e outras formas de preconceito e discriminação?

A estranheza surge quando examinamos as origens desses estilos. Ao investigar as raízes das subculturas, fica evidente que muitas se desenvolveram em contextos marcados pela contestação social, com objetivo de desafiar normas estabelecidas e expor sistemas de opressão.

Rock: a quebra de paradigma racial nos EUA

Little Richard foi um dos grandes nomes do rock ‘n’ roll nesse período e fundador de muitas de suas bases.

O rock surgiu em meados dos anos 1950 na música negra americana, marcando uma ruptura profunda numa sociedade estruturada pela segregação racial. Era síntese das tradições afro-americanas do rhythm and blues, blues e do gospel, somadas ao jazz e ao country. Num contexto em que existia música para negros e outra para brancos, o rock funcionava como demonstração de que essa segregação não fazia sentido e era forma de contestar as barreiras raciais que sustentavam aquele sistema.

Apesar disso, o rock foi embranquecido com o tempo e junto disso perdeu parte de seu espírito de contestação. É uma contradição, pois ao mesmo tempo trouxe consigo movimentos culturais importantes como o hippie, o punk, o gótico e o metal, que continuaram sendo formas de demonstrar rebeldia. Funcionavam como linguagem de identidade social para jovens que contestavam autoridades, limites da sexualidade e de expressão de gênero. Roqueiros passaram a ser vistos como rebeldes, contestadores, libertários que não seguiam nenhuma norma social.

Punk: raiva, conservadorismo e desindustrialização

The Clash, com suas letras de forte teor político, influenciou muitos músicos e bandas

O punk rock emerge nos anos 1970 capitaneando uma juventude com raiva de um mundo sem futuro. Tudo isso dentro de um governo conservador no Reino Unido e nos EUA, aliados a grande pobreza e guerras contra inimigos ideológicos. Com o tempo, o punk ganhou contornos políticos explícitos: The Clash e The Exploited traziam mensagens claras de contestação e conscientização, padrão seguido no Brasil pelos Ratos de Porão e Garotos Podres.

O hardcore e post-hardcore intensificaram essas mensagens de crítica social, trazendo também a demonstração de sentimentos como forma de bater contra um sistema de masculinidade tóxica que não permite expressão de dores emocionais. Essas bandas se posicionavam contra sistemas de opressão estruturais, com movimentos como o Revolution Summer, que prezava por adotar o experimentalismo musical e a desconstrução da masculinidade tóxica, trazendo o que mais tarde seria considerado como emocore.

Historicamente, sexismo e homofobia marginalizaram mulheres, pessoas LGBTQIA+ e outras minorias dentro do punk (e em alguns momentos, o hardcore). Como resposta crítica, surgiram o Riot Grrrl trazendo crítica feminista ao punk que debatia violência de gênero, representatividade feminina e opressão patriarcal e o Queer punk, desafiando explicitamente normas heteronormativas e criando espaços próprios para identidades queer em comunidades que as rejeitavam.

A apropriação fascista do punk

O punk também vivenciou momentos vergonhosos e controversos. Grupos de extrema-direita apropriaram-se do gênero, com bandas abertamente fascistas como Skrewdriver, lideradas por Ian Stuart, que distorceram seus ideais originais para espalhar discursos de ódio, intolerância e supremacia branca. Declarações polêmicas recentes de integrantes e ex-integrantes de bandas punks mostram que atitudes discriminatórias ainda persistem na cena, mesmo representando uma minoria.

Grunge: desemprego, colapso geopolítico e desindustrialização

O grunge capturou o vazio existencial de uma geração nascida no final da Guerra Fria e pós-colapso da União Soviética. Esses jovens, nascidos nos anos 1970, tinham que enfrentar forte desemprego, processo de constante desindustrialização em cidades como Detroit e Seattle e os resultados devastadores de todas as guerras e experiências neoliberais ao redor do mundo.

Era movimento que buscava autenticidade na rispidez sonora, na melancolia e raiva de suas letras. Rejeitava o excesso, o barulho comunicativo vazio, a falta de diálogo genuíno, a depressão, o vício em drogas e tudo aquilo que uma geração de jovens sofria naquela época.

Gótico: rejeição da felicidade fabricada

“Sisters gegen nazis” significa Sisters (of Mercy) contra os nazistas e era uma imagem que o Andrew Eldrich colocava em camisetas e patches.

O gótico emerge como reformulação do punk. Saem o barulho, rispidez e agressividade; entram o sombrio, a melancolia, a reflexão existencial e a dor de viver num mundo cujo futuro não era garantido. Infectados com aquele pensamento do Romantismo inglês, buscavam nas sombras uma forma de rejeitar explicitamente uma felicidade fabricada e vendida pela indústria cultural.

Em 1982, o clube Batcave foi inaugurado na Dean Street em Soho, Londres como um espaço para jovens marginalizados em meio ao governo conservador de Margaret Thatcher, marcado por um período de austeridade e exclusão social. Reunia artistas, pensadores, mulheres, pessoas LGBTQIA+, numa política de inclusão social que não existia em outros clubes, muitos dos quais não deixavam entrar pessoas julgadas inadequadas.

O Batcave foi palco para bandas emergentes no post-punk e gothic rock como Alien Sex Fiend, Specimen, UK Decay, Sex Gang Children e grupos de música industrial/post-industrial como Test Dept. e Death in June. Permitiu em sua curta existência, a gênese do gênero gótico como abrangente e inclusivo, não apenas musicalmente, mas também ideologicamente. Com baixos preços de entradas e bebidas, era reduto de diversão para jovens marginalizados, muitos deles desempregados e fora dos padrões heteronormativos de beleza e aceitação social.

Esses jovens assumiram padrão estético que desafiava explicitamente esses padrões opressivos, exaltando uma beleza mórbida, melancólica, teatral como uma performance de inconformidade. Somado ao uso de acessórios e vestuários que remetessem a épocas anteriores, como faziam os decadentistas do final do século XIX, criavam linguagem visual de rejeição e de inconformidade.

Heavy metal: classe operária, técnica e contradições de gênero

Na década de 1970, o heavy metal ascende como gênero musical formado dentro da classe operária branca e masculina da Inglaterra, contexto importante para entender suas raízes e contradições posteriores. Isso não impediu que mulheres começassem a se interessar pelo estilo e cena com força crescente.

A identidade dos fãs de metal é calcada por senso de união muito forte, dedicação profunda e apreço não apenas pelo barulho, mas pela técnica, pelo conteúdo lírico e musical, representando uma forma de fugir da fórmula que o mainstream jogava para ser engolida passivamente. Era resistência sonora contra padronização comercial.

Claro que isso não exclui elementos de preconceito e discriminação dentro do metal. Há dificuldade muito grande em lidar com questões ligadas a gênero, sexualidade e identidade, mesmo com artistas femininas e LGBTQIA+ entrando com cada vez mais força na cena.

Isso serve de combustível para que cada vez mais artistas tentem romper com esse padrão e, com isso, abraçar um público que também se identifica com as ideias da subcultura metal e agora querem que suas vozes sejam representadas, incluindo negros, mulheres, indígenas, entre outros.

Com isso, a gente consegue compreender como o metal consegue abraçar discursos que soam contraditórios com relação a práticas sociais que ainda precisam ser corrigidas, especialmente considerando que emergiu de estruturas de classe e gênero problemáticas.

Como conservadores se apropriaram de estilos alternativos?

Como vimos, todo estilo alternativo é uma ruptura contra padrão social estabelecido, não meramente estética. Então como conservadores se apropriaram de estilos que não condizem com sua linha de pensamento?

Não existe uma resposta única. O que me arrisco a dizer é que conservadores dentro dessas cenas representam uma minoria, apesar de existirem problemas reais e contradições dentro das subculturas. Sendo minoritários, não são a voz de toda uma comunidade, embora ganhem espaço e visibilidade num mundo cada vez mais polarizado e midiatizado.

Reduzir esses estilos à estética ignora integralmente sua história e significado sociais, desconsiderando os contextos culturais e políticos em que surgiram: governos opressivos, crises econômicas, racismo, exclusão. Essa simplificação transforma manifestações complexas em elementos superficiais, facilitando apropriação por grupos externos sem mesmas experiências ou lutas políticas. Assim, esses estilos se tornam mercadorias vazias, reforçando a exploração cultural.

A captura pela indústria cultural e o esvaziamento político

Isso é parte de como a indústria cultural se apropria e vende apenas a imagem, desprovida de conteúdo significativo. Bandas se posicionam cada vez menos politicamente, com público alheio ao que as subculturas realmente representam e sua história de contestação. Funcionam como consumidores acríticos que muitas vezes nem se conectam genuinamente ao grupo ou estilo musical que dizem lhes representar. Não é incomum vermos “góticos” que não gostam de música gótica ou pessoas usando camisetas de bandas apenas pelo apelo fashionista.

Isso também resulta da falta de posicionamento político claro e incisivo por parte dos próprios artistas e público. Não é incomum que grandes bandas evitem tocar em assuntos políticos espinhosos ou promover defesa aberta aos grupos socialmente desfavorecidos. Nisso a música pop leva vantagem enorme sobre qualquer outra coisa, uma vez que não é raro termos mulheres como a Madonna e a Lady Gaga constantemente brigando em favor da comunidade LGBTQIA+.

Temos cada vez mais bandas “chapa branca”, defendendo distanciamento de postura política, relegando comprometimento apenas a gêneros já politicamente engajados como punk, hardcore e rap.

Tanto que grupos consagrados como Iron Maiden, Judas Priest e Saxon nunca fazem declaração clara de apoio contra injustiças globais. Não falta assunto: Palestina, políticas de extrema direita, força armada das autoridades estatais, crescimento do conservadorismo, esses artistas nunca se mobilizam. Isso reverbera em bandas menores: quantas você vê hoje postando ou falando de problemas sociais e injustiças estruturais, não necessariamente em suas músicas?

Cria-se senso normalizado de que é aceitável gostar apenas do som e do estilo sem se envolver politicamente e ideologicamente com ele. A performance supera o pertencimento genuíno, de modo que a pessoa não reflete sobre seu próprio mundo enquanto membro de uma subcultura que historicamente se posicionava contra sistemas de opressão. E isso não faz sentido algum.

 


Editor, dono e podcaster. Escreve por amor à música estranha e contra o conservadorismo no meio underground.