Vera Fischer Era Clubber – VERAS II [Review]

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Sou um grande entusiasta da música experimental, mas escrevo menos sobre ela por aqui do que gostaria. Confesso que meu primeiro contato com o Vera Fischer Era Clubber veio acompanhado de um enorme preconceito, alimentado pelo péssimo vídeo usado para apresentar a banda em um programa da Cultura.

A impressão mudou quando ouvi VERAS, o disco de estreia. Bom em vários aspectos, o trabalho trazia uma porralouquice que me lembrava Rogério Skylab e Cansei de Ser Sexy. Entre a ironia e um nonsense não tão absurdo quanto parecia à primeira vista, o álbum me fez rever o que pensava da banda.

Em VERAS II, o segundo registro, a mudança de direção fica evidente. Se o antecessor era mais expansivo e debochado, este aposta em uma atmosfera sombria, puxada para o post-punk, com um pouco, bem pouco mesmo, de electro.

As letras assumem um tom quase dadaísta. Repetições constantes e alternâncias entre o canto e a fala funcionam como colagens temáticas. Incomodam, e, para mim, esse deveria ser um dos propósitos da música experimental: tirar o ouvinte do lugar, fazê-lo pensar e, quem sabe, tentar entender o que acontece em pouco mais de meia hora de disco.

“Quero Que Se Foda” tem uma linha de baixo com um baita groove e sintetizadores de pegada oitentista. A letra soa como uma cacofonia de sensações, na qual o desejo se manifesta pela insistência. Já “Feitiço” investe em texturas ambientes e numa interpretação soturna, melancólica e reflexiva. Depois do deboche do primeiro álbum, chega a causar estranhamento ouvir a banda tão séria e dramática.

“Amor de Anjo”, com a participação de Kiko Dinucci, um dos fundadores do Metá Metá, combina sensualidade, batidas dançantes e um instrumental hipnótico, que remete à luxúria e ao desejo. A letra mantém a seriedade de “Feitiço”, sem aliviar a carga dramática. Em “É o Pico, É o Ápice”, o post-punk ganha uma batida pesada e uma linha de baixo monótona. O contraste vem da letra mais escrachada, que me lembra algumas composições de Júpiter Maçã, e de um belíssimo refrão.

“Buceta Gay” recupera parte da provocação e da musicalidade do primeiro disco. Com uma pegada dance, a faixa se afasta do post-punk e dá à sequência um clima de festa sombria e decadente. “Grito, Dano e Possessão” retoma o post-punk eletrônico com uma abordagem retrô. A letra volta a soar como uma colagem, agora atravessada pela revolta, como um grito de desejo e prazer reprimidos.

Em “Prantos”, a banda se aproxima do industrial e, aos meus ouvidos, de algo do Psychic TV. É quase uma balada triste, sustentada pela forte presença do baixo. “Vesúvio”, com a participação do produtor Augusto Feres, segue por um darkwave dançante, com letra poética: música para uma parede escura e uma pista de dança esfumaçada.

“Chic Chic” aprofunda a incursão pela música industrial. O instrumental é denso, pegajoso e quase mecânico, com uma sonoridade que me faz pensar em KMFDM e Nine Inch Nails. Por destoar de boa parte do repertório, a faixa traz frescor ao trabalho. “Calcinha Gozada”, com a participação de Katy da Voz e as Abusadas, mantém o apelo do rock industrial. Pesada, irônica e marcante, é, para mim, a melhor canção de VERAS II.

Minha principal ressalva está na produção: as faixas iniciais soam um tanto plásticas. Embora eu perceba uma evolução em relação a VERAS, fica a sensação de que a banda poderia ter ido mais longe. Falta alguma coisa para dar unidade e fechamento ao trabalho, algo que o antecessor, na minha escuta, conseguia resolver melhor.

Ainda assim, merece destaque o cuidado em continuar experimentando. Mais sério e melancólico, VERAS II troca parte da expansividade da estreia por uma atmosfera de desejo, desconforto e decadência. Nem tudo se encaixa, mas o incômodo continua ali. E isso conta a favor da banda.

Vera Fischer Era Clubber - VERAS II

Descrição: Bom segundo disco, ainda mais por mesclar tanta coisa interessante sem soar cópia de ninguém.

Artista: Vera Fischer Era Clubber

Duração: 34:04

Álbum: VERAS II

Gravadora: Palatável Records

Gênero: Experimental, post-punk, eletrônica

  • Nota Geral - 8/10
    8/10
8/10