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Normalmente não gosto muito de escrever sobre estes temas menos musicais. As pessoas até me cobram mais matérias sobre música experimental, sobre outras coisas e até mesmo fico devendo resenhas. Contudo, alguns acontecimentos me forçam a voltar em um tema que deveria ser repensado por toda a cena metal brasileira: o preconceito aliado ao discurso de ódio.

Vamos voltar ao começo do heavy metal. O gênero surgiu lá nos idos de 1970 com quatro caras que não tinham onde cair mortos, que faziam uma música pesada, com temáticas obscuras e ocultistas e, como se não bastasse, tinha entre seus membros um ex-delinquente juvenil e um ex-trabalhador de uma usina siderúrgica. Black Sabbath foi um marco na história por oferecer uma música sombria, letras que falavam sobre terror e sobre ocultismo e que fizeram a cabeça de toda uma juventude da cidade de Birmingham, que passava por problemas financeiros depois da Segunda Guerra Mundial.

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Dada a sua popularidade, o heavy metal conseguiu atingir muitos ouvintes já cansados da onda hippie e daquele pop grudento e feliz que eram moda nos anos de 1960. Ouvi-lo significava também se opor ao conservadorismo excessivo de uma sociedade que ainda procurava se reestruturar, com o embate ideológico entre a América capitalista e a União Soviética comunista acontecendo e com guerras e disputas pela hegemonia. O rock pesado e o metal eram contrapontos a essa disputa, uma forma agressiva de oposição, de tal modo que “[…] pais cristãos queimavam discos de heavy metal nos anos de 1980 nos Estados Unidos[…]” (HJELM; KAHN-HARRIS; LEVINE, 2011, p. 8). Tudo isto acontecia por conta das imagens e das atitudes dos grupos, de fãs e até mesmo da própria imprensa, que muitas vezes demonizava tudo que fosse relacionado ao mundo do heavy metal e seus subgêneros.

A controvérsia, logo, surge do embate contra a cultura hegemônica e seus valores. O lema sexo, drogas e rock’n’roll deixava muito clara a ideia de a sociedade repressora exigia de sua juventude um comportamento de retidão, de pureza e que o rock devia ser evitado por não respeitar nenhuma convenção social. Não raro foram os escândalos envolvendo músicos e seus excessos eram um digníssimo foda-se para todo o conservadorismo. Rolou nos EUA até mesmo a classificação do metal como ofensivo e perigoso e não surpreende muito que tenha surgido pela mente abrilhantada da esposa do Al Gore, Tipper Gore. Nessa trilha, quando as bandas mais tradicionais foram ficando mais velhas e seu discurso subversivo mais diluído, surge o death e o black metal, trazendo o satanismo, a pornografia, a blasfêmia e a contestação de valores, criando mais uma vez o embate contra o establishment.

(NO AGENCIES IN UK, FRANCE, GERMANY, HOLLAND, SWEDEN, FINLAND, JAPAN.) Slayer 1986 during Music File Photos 1980's at the Music File Photos 1980's in los angeles, . (Photo by Chris Walter/WireImage)
(NO AGENCIES IN UK, FRANCE, GERMANY, HOLLAND, SWEDEN, FINLAND, JAPAN.) Slayer 1986 during Music File Photos 1980’s at the Music File Photos 1980’s in los angeles, . (Photo by Chris Walter/WireImage)

O thrash metal americano, nascido no mesmo berço do hardcore, levantava algumas questões políticas importantes, basta notar grupos como Slayer e as músicas Chemical Warfare e The Final Command, Metallica com Master of Puppets e One, entre outras. O thrash europeu não ficava atrás e trazia coisas muito interessantes como o Sodom e seu Agent Orange (um tipo de pesticida usado na Guerra do Vietnam como arma química, cujos danos ao corpo humano são irreversíveis ), Bulldozer e a sua crítica ao mundo pop e seus símbolos sexuais em Sex Symbol’s Bull Shit e até mesmo o Kreator, criticando o consumismo exacerbado em Material World Paranoia.

Aqui no Brasil tivemos bons representantes dessa leva, como o Sepultura, que trazia em muitas de suas letras os problemas da repressão e da liberdade de expressão, na qual destaco Slave New World, Refuse/Resist e Arise; Dorsal Atlântica vem com aquele soco na orelha em Corrupto Corruptor e em Rip (racism, Ignorance, Prejudice) (que começa com um belíssimo throat singing). Não teria como citar todo mundo, mas já é sabido que a ideia do pessoal do meio metal era ir contra toda uma superestrutura opressiva e que podava as pessoas de suas liberdades individuais. Mesmo que muitos desses grupos não fossem politizados, era notório o discurso de rebeldia e a música dava voz a isto.

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Entretanto, comportamentos e padrões preconceituosos sempre permearam a cena, ainda que muitas vezes não fossem o foco das bandas e das pessoas. Weinstein (2009) ainda reforça que a imagem da mulher e as regras de gênero sempre foram tratadas de forma sexista, sobretudo nas capas dos álbuns e nos clipes. Nesse meio floresceram artistas e bandas como Girlschool, Vixen, Doro Pesch e Lita Ford, embora elas ainda não conseguissem se desvencilhar da imagem de objetos sexuais. Era um começo para que bandas como Arch Enemy, Oathbreaker, Gallhammer, Cadaveria, L7, Hecate, entre outras, pudessem trazer mulheres em destaque sem torna-las objetos.

Mas aí alguma coisa aconteceu no meio do caminho e o que se tem mais visto é um monte de fãs de metal, sejam eles homens ou mulheres, reproduzindo um padrão de comportamento que não condiz com tudo que o heavy metal tem lutado contra. Temos pessoas racistas, preconceituosas, extremamente moralistas, cujo gênero serve para demonstrar um status superior perante a massa, pois não toca nas rádios, é muito difícil encontrar discos de bandas, possui mais técnica e é preciso ter um gosto mais apurado para conseguir compreender o gênero. E qual a razão disto?

Postulo, ainda que de forma opinativa, que isto se deve a alguns fatores. O primeiro diz respeito ao acesso, muitos dos discos de metal são de acesso restrito dado o seu valor comercial, dificuldade de encontrar em lojas e até por não aparecer em programas de apelo popular. O segundo é o lado contraventor ser percebido também numa esfera subjetiva, tal como apontam Hjelm, Kahn-Harris e Levine (2011), representado por não ter apelo popularesco, não tocar em rádios e ter um grupo mais seleto de fãs, gerando um ethos de exclusividade. O terceiro, talvez o mais grave, é que num mundo mais estável, com menos conflitos de ordem mundial, as pessoas não têm voltado seus olhos para outras problemáticas da realidade. Não veem como importantes as questões de um mundo plural, em que os grupos minoritários requerem atenção e os marginalizados querem ser vistos como membros da sociedade e serem respeitados como tais.

Neste ponto eu coloco as duas situações que me fizeram escrever este texto. A primeira foi a postagem do grupo Vingador, que eu compartilhei também na nossa página no facebook e reproduzo abaixo:

Qual a minha surpresa ao ver que muitos fascistas estavam felizes com a morte da menina, cujo assassinato parece ter sido ocasionado por questões políticas? Como uma cena estruturada num gênero que nasceu do embate contra o conservadorismo tem permitido que esse tipo de gente a frequente e dissemine discursos de ódio e de preconceito?

Outro caso, igualmente grave, aconteceu depois desta postagem do grupo Violator:

Como que pessoas fãs do Bolsonaro conseguem pertencer a essa cena, que possui bandas e artistas que se voltam justamente contra os valores que esse político representa? Em que momento esses fãs e essas fãs não percebem que ele e toda a sua família desejam justamente o contrário do que o heavy metal e seus subgêneros tem? Será que todos eles são fãs de metal cristão, que se preocupa em usar da música para levar a palavra de Deus e reforçar o conservadorismo como discurso? Eu pessoalmente duvido muito.

Isto se deve em parte a própria permissividade de uma cena que não tem dado importância para este povo, que tem deixado com que eles contaminem tudo com o pior do conservadorismo, da misoginia e do preconceito. E muitas bandas também têm colaborado com isto, não se posicionando, ainda que de forma negativa, com relação a tudo isto. Isto muito pouco tem a ver com ser de esquerda ou de direita, até mesmo porque o discurso deveria ser contra a opressão, em primeiro lugar. O Sepultura nunca foi alinhado politicamente com nada, mas suas músicas antigas diziam que o mundo em conflito precisava mudar. O Kreator diz que não é mais tempo de tolerância e que somente uma revolução violenta poderia solucionar as coisas. O Ministry dedicou discos inteiros em críticas ao governo Bush, que ajudou a colocar os EUA numa profunda recessão. Recentemente o Napalm Death cantou uma versão de “Nazi Punks Fuck Off” do Dead Kennedys, com participação do Jello Biafra, atacando o candidato Donald Trump, da mesma maneira que o Brujeria dedica uma turnê inteira para mandar esse mesmo candidato ir se foder.

Talvez seja a hora das pessoas reverem seus posicionamentos, independentemente da posição política ou partidária. Tentar mostrar que ser headbanger não é ser conservador, mas sim alguém que busca alternativas ao que lhe é imposto pela sociedade, pela mídia e pela religião. E, como citado acima, já dizia sabiamente o Dead Kennedys quando percebeu que os nazis estavam se apropriando do punk:

Punks nazistas, punks nazistas

Punks nazistas vão se foder

Punks nazistas, punks nazistas

Punks nazistas vão se foder

Você será o primeiro a ir

Você será o primeiro a ir

Você será o primeiro a ir

A menos que você pense

Ou seja, pensem em primeiro lugar. E se não gostaram do que está aqui, apenas digo para esquecerem do Groundcast. A gente não precisa de fã babaca por estes lados.

Recomendo a leitura

HJELM, T.; KAHN-HARRIS, K.; LEVINE, M. Heavy Metal as Controversy and Counterculture. Popular Music History , v. 6, n. 1, p. 5–18, 2011.

WEINSTEIN, D. Heavy Metal The Music And Its Culture. New York: Da Capo Press, 2009.

Créditos da imagem de capa:  Chris Yarzab via VisualHunt.com / CC BY-NC-SA

 

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