Confesso, de verdade, que não tinha muita vontade de escrever este texto. Não porque o assunto não seja importante, mas porque quem acompanha o Groundcast há algum tempo já está meio careca de ler sobre neofolk, música industrial, iconografia totalitária e Death in June.
Só que os acontecimentos recentes na UFRJ me fizeram reconsiderar esse posicionamento. Não porque toda discussão sobre uma camiseta precise virar uma aula de história da música alternativa, mas porque, quando entramos em uma conversa pouco produtiva, a reação pública quase sempre cai em um automatismo de “nós contra eles”, apagando muitas das nuances dessa história.
Também li por aí que qualquer pessoa que ouve ou gosta de Death in June é automaticamente nazista, e a coisa não é bem por aí. Ou alguém acha que o Ladytron é automaticamente um grupo de extrema direita porque fez sua versão de “Little Black Angel”? Ou que o Ikon é, pelo mesmo motivo, por ter gravado um cover de “Fall Apart”?
Da mesma forma, não é aceitável relativizar o uso de imagens nazistas, a despeito de qualquer “intenção artística”. O próprio Death in June já não usa a Totenkopf 1 como símbolo em seus discos há algum tempo, ainda que a mantenha — junto de muitos outros emblemas — como parte de um tipo bastante estranho de fetiche estético.
As duas posições são perigosas. Até porque a problemática envolvendo o estudante não teria sido motivada apenas por uma camiseta, mas por todo um conjunto de ações bastante ruins que culminaram na reação dos envolvidos.
O episódio na UFRJ
Na noite de 25 de agosto, um estudante foi agredido por outros alunos no IFCS/IH 2 da UFRJ, no Centro do Rio. O caso repercutiu porque ele usava uma camiseta do Death in June e, segundo relatos da imprensa, teria feito apologia ao nazismo antes de ser cercado, retirado do local e agredido. A UFRJ repudiou manifestações de nazismo, fascismo, racismo, antissemitismo e outras formas de discriminação, mas também condenou a violência e informou que apura o episódio.
Aqui vale destacar que não foi apenas o uso de uma camiseta que resultou na agressão. Tampouco se pode afirmar que vestir uma camiseta de Death in June transforma automaticamente alguém em fascista. Entretanto, o símbolo empregado na roupa, que remete ao seu uso pelo regime nazista, não tem uma conotação neutra.
Também foi observado que o rapaz usava um broche pequeno associado ao antinazismo. Isso pode ser entendido como parte de uma estratégia política conhecida como “negação plausível”3, expressão atribuída por alguns à CIA e usada para descrever situações em que políticos ou altos funcionários conseguem negar, de forma aparentemente convincente, os atos praticados por subordinados.
Como tática de extrema direita, a negação plausível pode funcionar como uma forma de esconder símbolos de ódio sob referências aparentemente contrárias a discursos extremistas, buscando escapar de julgamentos ou responsabilizações. Isso se torna especialmente eficaz em contextos liberais, como o dos Estados Unidos, nos quais a defesa da liberdade de expressão costuma ser mobilizada para proteger manifestações que, em outras circunstâncias, seriam reconhecidas com maior facilidade como extremistas.
Sobre o Death in June
O Death in June surgiu em 1981, formado inicialmente por Douglas Pearce, Tony Wakeford e Patrick Leagas. Os três vinham do Crisis, grupo associado ao punk político britânico e ligado a circuitos antifascistas, com atividades relacionadas ao Rock Against Racism 4, à Anti-Nazi League 5 e a campanhas de trabalhadores, em um contexto no qual combater o crescimento da extrema direita britânica era uma questão urgente.
O nome da banda remete à “Noite das Facas Longas”, entre 30 de junho e 1º de julho de 1934, quando Hitler mandou executar líderes da SA 6 e outros adversários políticos. A referência não é casual: os primeiros lançamentos tinham números de catálogo como SA 29.6.34 e SA 30.6.34, aludindo ao expurgo e às tropas de assalto nazistas.
Tony Wakeford foi afastado do Death in June em 1984, em um período em que mantinha vínculo com a National Front 7, organização britânica de extrema direita. Douglas Pearce não aceitava qualquer tipo de associação com o partido e, mais tarde, o próprio Wakeford deixaria a National Front, afirmando que essa filiação havia sido uma das maiores bobagens que cometera.
Depois, o grupo passou a usar referências militares, runas, uniformes, caveiras, guerra, autoritarismo, morte, decadência europeia e iconografia ligada ao fascismo e ao nazismo. Entre os símbolos mais conhecidos estão a Totenkopf, usada por unidades da SS 8 e associada ao Death in June, além do Sol Negro 9 e da runa Algiz 10, que têm origens anteriores ao nazismo, mas foram apropriados por imaginários nacional-socialistas e pela extrema direita contemporânea.
Embora o Death in June tenha se afastado das temáticas militares e da simbologia fascista mais explícita, sua iconografia ainda recorre a elementos do nazifascismo, como uniformes, insígnias, runas e imagens de guerra. Mesmo sob temas esotéricos, pagãos ou ligados a uma ideia de “Europa espiritual”, a estética da banda permanece associada a símbolos de forte peso histórico.
Também pesa sobre a banda sua ambiguidade persistente. Douglas Pearce evita enquadramentos políticos diretos e define o Death in June como um projeto mais estético e individual do que ideológico. Ao mesmo tempo, não afasta leituras fascistas ou supremacistas, nem parece se incomodar com elas. Assim, a banda pode ser vista tanto como crítica ambígua ao totalitarismo (leitura da qual discordo) quanto como celebração acrítica e velada de seus símbolos, permitindo que públicos politicamente opostos se reconheçam nela.
Soma-se a isso o afastamento de David Tibet, parceiro antigo de Douglas Pearce. Fundador do Current 93 11 e figura central do neofolk experimental, Tibet colaborou com Pearce e compartilhou interesses por esoterismo e espiritualidade alternativa, mas passou a se distanciar de elementos associados ao fascismo e ao nazismo sem nenhum tipo de posicionamento claro. Para críticos e fãs, esse rompimento reforça como a relação do Death in June com símbolos da extrema direita é problemática até dentro de seu próprio círculo artístico.
Mas, e quando os símbolos se quebram, o que fica?
Não se pode normalizar símbolos fascistas, nem sob a justificativa do humor ou da “anti-pop art”. A ideia de “desarmá-los” pela ironia, pela apropriação estética ou por uma suposta crítica interna que ignora seu significado parte de uma premissa equivocada: a de que o sentido de um emblema pode ser totalmente controlado por quem o usa. Na prática, todos esses símbolos carregam um peso histórico que ultrapassa intenções individuais. Nenhum discurso é vazio e, muitas vezes, a ambiguidade reforça justamente o pior lado.
O resultado é que, em vez de desconstruir o fascismo, essa postura muitas vezes o torna mais palatável, mais difuso e mais fácil de circular em contextos em que, de outra forma, seria imediatamente rejeitado. Esvazia-se qualquer tentativa de trazer as problemáticas para o centro do debate e naturaliza-se que discursos de ódio possam circular livremente, desde que apresentados como “apenas uma piada” ou “um uso meramente estético”. A gente conhece bem onde isso termina.
No caso do Death in June, isso é especialmente delicado, pois a banda construiu sua identidade na fronteira entre fascínio estético, referência histórica e provocação política. Ao não assumir uma posição clara, beneficia-se da dúvida e, mesmo que seu público majoritário não seja composto por neonazistas, permite que a obra seja reapropriada livremente, sem grandes obstáculos.
Ironicamente, é justamente isso que But, What Ends When The Symbols Shatter?, de 1992, aborda. O título resume muito bem essa questão: o que resta quando os símbolos perdem força, a provocação se esgota e a ambiguidade vira conveniência? Capa, letras, sons e imagens ainda mobilizam referências militares, totalitárias e esotéricas, sem oferecer uma leitura claramente antifascista.
Encerrar sem fingir que há uma resposta simples talvez seja a saída mais honesta. O Death in June não é um caso isolado, mas obriga a lembrar que a arte não existe fora da política e que recusar posições também é uma posição. Quando os símbolos se quebram, resta perguntar que memória, responsabilidade e futuro queremos construir a partir das ruínas que escolhemos habitar.
Fontes sobre o caso da UFRJ
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- G1 — “Agressão na UFRJ: Polícia investiga caso após alusão ao nazismo”. Relata que o caso ocorreu em 25 de agosto de 2026, no IFCS, informa a investigação pela Polícia Civil e registra a abertura de sindicância interna pela UFRJ.
- O Globo — “Estudantes da UFRJ se envolvem em confusão após jovem aparecer para aula usando camiseta que supostamente fazia apologia ao nazismo”. Apresenta a versão inicial do caso, menciona a camiseta associada ao Death in June, a Totenkopf e as imagens da agressão.
- O Globo — “Alunos da UFRJ dão versões opostas sobre acusação de nazismo e agressões no IFCS”. É particularmente importante porque apresenta versões divergentes dos envolvidos: uma relacionada à suposta apologia ao nazismo e outra segundo a qual o estudante usava uma camiseta de uma banda punk antinazista. Também informa que havia inquérito policial e comissão de sindicância.
- Estadão — “Reitor da UFRJ condena agressão a aluno que usava símbolo nazista: ‘Não é inimigo a ser derrotado’”. Registra a posição do reitor Roberto Medronho, a abertura da sindicância e a necessidade de garantir o direito de defesa aos envolvidos.
- Diário do Centro do Mundo — “Estudante da UFRJ é agredido por usar camiseta de banda neonazista”. Fonte jornalística sobre a repercussão inicial do episódio. Deve ser utilizada com cautela, especialmente por empregar a classificação “neonazista” no título.
- Metrópoles — “Alunos da UFRJ agridem jovem por suposta apologia ao nazismo em camiseta”. Registra a versão inicial sobre a agressão e a relação da camiseta com o Death in June.
- O Dia — “Estudantes da UFRJ brigam após estudante usar símbolos nazistas em aula”. Menciona a camiseta, a associação com uma banda e a presença alegada de outros símbolos.
- Folha de S.Paulo — “Aluno de história é espancado por estudantes na UFRJ”. Relata que a universidade investigava a agressão e a suposta apologia ao nazismo.
- O Globo — “A UFRJ não aceita nazismo, antissemitismo nem qualquer forma de discriminação, mas também repudia a violência”. Registra a posição posterior do reitor sobre a necessidade de condenar simultaneamente o nazismo e a agressão.
- Lei nº 7.716/1989 — Presidência da República. Texto legal brasileiro que trata dos crimes resultantes de preconceito e inclui disposições sobre símbolos associados à divulgação do nazismo.
- UOL – Estudante espancado na UFRJ nega acusações. – Um resumo sobre a entrevista dada por Diego Costa da Silva Araújo e as acusações sobre nazismo e preconceito.
Fontes sobre Death in June
- Robert Forbes — Misery and Purity: A History and Personal Interpretation of Death In June. Livro publicado pela Jara Press em 1995. Reúne uma reconstrução pessoal da trajetória da banda, entrevistas, relatos de shows, informações sobre lançamentos e interpretações sobre símbolos e letras. O próprio autor informa que recebeu colaboração de Douglas P. e alerta para a possível existência de entrevistas falsas atribuídas ao grupo. Por isso, é uma fonte importante, mas não deve ser tratada como uma biografia neutra ou definitiva.
- Pitchfork — “A History of Anti-Fascist Punk Around the World in 9 Songs”. Fonte utilizada para contextualizar o Crisis, o punk antifascista britânico e a passagem de integrantes do grupo para o Death in June.
- Mirko M. Hall — “Death in June and the Apoliteic Specter of Neofolk in Germany”. Artigo acadêmico publicado em German Politics and Society. Discute a estética do neofolk, sua relação com o misticismo völkisch, o imaginário fascista e as disputas de interpretação em torno do Death in June.
- “Just aesthetics or something more? Neofolk as a vehicle for the dissemination of extreme right-wing ideology”. Estudo acadêmico sobre o uso de estética fascista e de extrema direita no neofolk. É útil para contextualizar o problema de maneira mais ampla, sem reduzir todo o gênero ao fascismo.
- K. Spracklen — “Nazi Punks Folk Off”. Texto acadêmico que discute a presença de referências fascistas e nazistas em cenas musicais alternativas, incluindo o neofolk e o Death in June.
- Vice — “Civil Rights Organization Deems Oregon Industrial Label a Hate Group for Promoting Racist Music”. Fonte jornalística sobre a gravadora Soleilmoon, sua relação com artistas controversos e declarações atribuídas a Douglas Pearce. Deve ser usada como fonte de contexto, não como prova isolada de uma posição política definitiva.
- Site oficial do Death in June — página de But, What Ends When The Symbols Shatter?. Apresenta dados do lançamento, formatos, edições e catálogo do álbum.
- Site oficial do Death in June — letra de “But, What Ends When The Symbols Shatter?”. Fonte para a letra e para a identificação da faixa-título.
- Current 93 — “A Song for Douglas After He’s Dead”. A faixa aparece no álbum Thunder Perfect Mind, de 1992, e é associada a Douglas Pearce. A relação entre a música, David Tibet e Pearce também é discutida no material anexado.
- Discogs — “Death In June / Current 93 / Sol Invictus: Legacy of Loneliness — Live 1991”. Fonte discográfica que registra a participação de David Tibet, Douglas Pearce, Rose McDowall e Tony Wakeford no lançamento audiovisual.
- A Blaze Ansuz / Antifascist Neofolk — “Death in June”. Fonte de orientação antifascista que discute a trajetória de Tony Wakeford, sua passagem pela National Front e o uso de estética fascista pelo Death in June. Deve ser lida como fonte militante e interpretativa, não como relato neutro.

