Giles Corey e como transformar a depressão em arte

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 Aviso de conteúdo: este artigo aborda depressão, ideação suicida e morte. 

A depressão altera a relação de uma pessoa com o tempo, com o próprio corpo e com a possibilidade de futuro. Não é uma falha moral, uma simples tristeza ou uma incapacidade individual de lidar com o mundo: é uma condição séria, que demanda escuta, cuidado e, quando necessário, acompanhamento profissional.

Mark Fisher postula que a depressão não é apenas um fenômeno individual, mas uma crise social e política. Em uma sociedade marcada por isolamento, precariedade e cobrança permanente por desempenho, quem sofre tende a sentir-se negligenciado e incapaz de corresponder às expectativas de produtividade e felicidade.

O resultado não é apenas o sofrimento íntimo, mas uma experiência de esgotamento que parece confirmar, a cada dia, que não há saída, agravada por dificuldades para manter cuidados básicos, como sono, alimentação, hidratação e autocuidado, além de pouco ou nenhum tempo de qualidade com família e amigos.

A música conhece bem essa linguagem do desespero. Há obras que transformam medo, luto, solidão e desejo de morrer em canção, de modo a representar os sentimentos negativos que seus autores atravessavam. Mas Giles Corey, projeto solo de Dan Barrett, vai além do lamento, pois constrói uma narrativa de fantasmas do passado, sufocamento, fé, culpa e morte para encenar uma mente que se sente aprisionada e desesperançosa com relação ao futuro.

Dan Barrett, um dos fundadores da banda Have a Nice Life, passou por um momento de grave sofrimento psíquico. O disco, lançado em 2011, não é uma tentativa de aliviar essa dor, mas de abrir para o mundo sua condição e como ela o afligia constantemente. Barrett afirmou que esse álbum trata de um período em que tentava decidir se continuaria vivo, enquanto pesquisava sobre suicídio e o paranormal.

O álbum leva o nome de Giles Corey, agricultor acusado de bruxaria durante os julgamentos de Salem, em 1692. Corey foi submetido ao peine forte et dure, prática de tortura por esmagamento usada para coagir uma pessoa a aceitar o julgamento, ao qual ele se recusou a se submeter. A hipótese histórica mais recorrente é que sua recusa visava evitar que seus bens fossem confiscados, preservando-os para os filhos, mas não há certeza sobre suas motivações.

É a partir dessa imagem de um homem esmagado que se recusa a ceder que Barrett constrói Giles Corey. Com um folk sombrio e fantasmagórico, o disco dá forma a pensamentos de autodestruição, incapacidade de amar, isolamento e exaustão. A depressão não é tratada como um sentimento passageiro, mas como uma paisagem formada por poços, igrejas vazias, quartos fechados, espíritos, pedras sobre o peito e corpos enterrados ainda em vida.

Isso não transforma a depressão em algo belo. O que o álbum faz é mostrar como a dor existencial pode se apresentar como uma certeza sobre o futuro: a convicção de que nada vai mudar, de que não há saída, de que toda esperança é uma mentira. A obra não oferece consolo fácil; ela expõe a força com que a desesperança se impõe como verdade para quem sofre.

O livreto que acompanha o disco aprofunda esse movimento. Em suas quase 150 páginas, Barrett mistura relato confessional, ficção, ocultismo, reflexões sobre memória e uma narrativa centrada em Robert Voor. Ele funciona como uma figura ficcional recorrente no universo de Barrett: um suposto pesquisador do paranormal e líder de culto cujas ideias organizam a imagética do texto. A escolha é importante porque impede que o livreto seja lido apenas como diário ou autobiografia direta, pois trata-se de uma obra híbrida, em que a experiência pessoal é mediada pela ficção.

Nesse universo, Voor cria o chamado Voor’s Head Device, um dispositivo que priva a pessoa de referências sensoriais e a conduz a estados de vulnerabilidade, alucinação e sufocamento. Esse dispositivo pode ser lido como uma metáfora material da depressão: uma estrutura que isola, distorce a percepção e faz o mundo exterior perder consistência, aproximando-se das sensações de paralisia, angústia, isolamento e perda de contato com a vida.

A força de Giles Corey está na articulação entre música e livreto. As canções apresentam, de forma concentrada, imagens de sufocamento, culpa, morte e desamparo; os capítulos em prosa que as sucedem transformam essas imagens em uma mitologia própria, marcada por fantasmas, seitas, falsas pesquisas paranormais e memórias instáveis.

Assim, o disco não usa o ocultismo apenas como ambientação: ele converte a depressão em cosmologia, em uma maneira de enxergar o corpo, o tempo e o mundo como lugares sem saída. Tudo isso combinando uma prosa forte e potente com as letras das músicas do álbum.

The Haunting Presence e o peso de estar vivo

O álbum se inicia com “The Haunting Presence”, que introduz Giles Corey não apenas como personagem histórico, mas como uma presença espectral que acompanha o narrador. A recorrência de imagens como o peso sobre as costas, as pernas, o peito e o pescoço transformam o suplício de Corey em metáfora corporal da depressão como algo invisível, mas concreto o bastante para limitar o movimento e a respiração. Quando a letra fala em estar “enterrado acima do chão”, ela descreve uma vida experimentada como sepultamento: o sujeito continua existindo, mas já não sente que participa plenamente do mundo.

O capítulo “Village of 100 Witches”, que segue a faixa, inicia a apresentação de Robert Voor e do Voor’s Head Device, dando a “The Haunting Presence” uma explicação ficcional na prosa. O dispositivo, que isola e desorienta quem o utiliza, pode ser lido como uma figura material para a experiência depressiva, uma condição em que o contato com o exterior parece interrompido e a consciência se fecha sobre seus próprios medos.

Blackest Bile e a subjetividade envenenada

“Blackest Bile” radicaliza a imagem de uma subjetividade contaminada. A “bile mais negra” é percebida apenas pelo eu-lírico, tornando seu sofrimento privado, difícil de comunicar e inacessível a quem está ao redor. Ao “abrir o coração”, ele não encontra conforto, mas uma força que destrói sua capacidade de amar e de esperar algo das outras pessoas. A solidão, então, deixa de parecer circunstancial e assume a forma de destino: ele se descreve como alguém “nascido para ficar sozinho”, como um fantasma.

O capítulo “Indians Shooting Stars” amplia essa sensação ao voltar à infância, à violência e à memória fragmentada. Em vez de oferecer uma origem estável para o sofrimento, apresenta recordações incertas e a tentativa de transformar uma experiência traumática em explicação para a própria vida. O vínculo com “Blackest Bile” está no modo como o passado é lido pela lente da dor atual, não como algo encerrado, mas como a prova de que o narrador sempre esteve condenado à tristeza.

Grave Filled With Books e a busca por sentido

Em “Grave Filled With Books”, a relação entre leitura, escrita e sofrimento ganha centralidade. A letra associa insônia, cama, túmulo e livros, como se o esforço de encontrar sentido nas palavras resultasse apenas em aprisionamento. Não se trata de uma crítica simplista à intelectualidade: é a representação de uma busca compulsiva por explicações que, em vez de aliviar a angústia, alimenta a sensação de não saber sobre si mesmo.

O capítulo “Come Over, Come Over” prolonga esse movimento ao mostrar o narrador diante de um abismo, imaginando uma vida após a morte na qual ninguém pertence a ninguém. A investigação de Voor sobre o outro lado não traz  esperança, mas uma versão ainda mais extrema da solidão sentida por Giles. Música e livreto sugerem, juntos, que a procura por uma resposta definitiva para a dor pode se tornar outra forma de aprofundar o desespero.

Empty Churches e a sensação de esmagamento

“Empty Churches” interrompe momentaneamente a densidade das letras com uma frase breve: “maybe I’m just feeling crushed” (talvez eu esteja me sentindo esmagado, em tradução livre). Essa concisão tem função importante. Depois das imagens grandiosas de morte e culpa, a canção reduz tudo a uma sensação corporal simples de ser esmagado. O capítulo seguinte, “Sleep Tapes”, introduz as gravações atribuídas a Robert Voor e sua tentativa de ouvir vozes dos mortos. O livreto deixa claro que esses supostos registros são instáveis e suspeitos, portanto, seu papel não é provar a existência do paranormal, mas dramatizar a necessidade de encontrar uma voz externa que confirme o desespero interno.

I’m Going to Do It e a ideia como destino

Em “I’m Going to Do It”, a voz depressiva não hesita: ela anuncia. A repetição transforma a ideação suicida em pensamento circular, em uma linguagem que parece já não admitir alternativa. Mais do que uma confissão, a faixa encena o momento em que a pessoa passa a se enxergar como algo que deve ser removido, como se sua própria existência fosse um erro. Por isso, a canção deve ser lida como representação de uma mente em crise e não como celebração ou solução para o sofrimento.

O capítulo “The Dark Ocean Society” mostra como essa busca por certezas pode se tornar coletiva e destrutiva. Voor oferece a seus seguidores uma linguagem para morte, tristeza e transcendência, acompanhada de isolamento, vulnerabilidade e perda de autonomia. Aqui, o livreto faz uma crítica importante à promessa de explicações totalizantes: quando alguém afirma possuir uma resposta definitiva para a dor, pode transformar o sofrimento legítimo em instrumento de controle social.

Spectral Bride e o amor como fantasma

“Spectral Bride” desloca o tema para o amor. O eu-lírico afirma não merecer a pessoa amada, duvida de que possa ser salvo pelo amor e expressa o desejo de sobreviver “a esta semana”. A “noiva espectral” não é uma figura romântica em sentido convencional, ela encarna o medo de que o vínculo sobreviva apenas como fantasma, isto é, depois que a vida já não puder ser compartilhada de fato. A canção mistura desejo de proximidade e antecipação da perda, como se o amor fosse simultaneamente abrigo e prova de indignidade.

O capítulo “The Spectral Gaol” torna essa metáfora mais ampla. Para Voor, os mortos não encontram paz, em razão de permanecerem presos ao mundo, incapazes de tocá-lo ou alterá-lo. Esse “cárcere espectral” pode ser lido como imagem da depressão, a qual o sujeito permanece fisicamente presente, mas separado da vida comum, sem conseguir agir, respirar ou estabelecer contato pleno com os outros. O fantasma não é somente o morto, mas igualmente quem vive sem se sentir inteiramente vivo.

No One Is Ever Going to Want Me e a autoimagem degradada

“No One Is Ever Going to Want Me” concentra a autoimagem degradada que percorre o disco. O eu-lírico se descreve como animal, destrutivo e incapaz de receber afeto. A referência à crucificação de Cristo não produz promessa de redenção, tal qual se trata de uma imagem de sofrimento sem transcendência, de um nascimento “ao contrário”, em que tudo parece piorar. O desejo de dormir, ao final, não aparece como descanso genuíno, mas como tentativa de escapar de uma consciência que se tornou insuportável.

O texto seguinte, “What Does It Mean If We All Die Anyway”, nomeia a estrutura dessa visão de mundo como “The Lie”. A “mentira” não é sentir dor, mas transformar a dor em certeza, para acreditar que o presente define todo o passado e todo o futuro, que nenhuma mudança é possível e que a miséria será eterna. Esse é o eixo que organiza o álbum, apresentando a depressão como conhecimento total, quando, na verdade, ela restringe violentamente aquilo que o sujeito consegue imaginar sobre si e sobre o mundo.

A Sleeping Heart e o coração adormecido

“A Sleeping Heart” retorna ao imaginário de morte, memória e abandono. O eu-lírico imagina seu próprio enterro e pede que suas palavras sejam gravadas em uma pedra, mas a pergunta final — “how do I wake your sleeping heart?” — impede que a faixa se reduza a uma despedida. Há, ainda, uma demanda de contato, com o desejo de alcançar alguém emocionalmente distante. O capítulo “Wells of Despair”, que vem depois, aprofunda essa lógica ao discutir como crenças e expectativas moldam aquilo que conseguimos perceber, fazendo com que evidências contrárias à desesperança permaneçam invisíveis.

Buried Above Ground e a vida como sepultamento

Por fim, “Buried Above Ground” retoma a imagem inicial do álbum e funciona como condensação de sua paisagem emocional. O narrador continua vivo, mas se sente soterrado; continua se movendo, mas vive como quem está preso em uma cela ou no fundo de um poço. A morte, portanto, não surge apenas como evento futuro, mas como experiência subjetiva do presente, pela sensação de estar afastado da vida antes mesmo que ela termine.

O capítulo “Giles Corey” e as páginas finais do livreto introduzem, contudo, uma ruptura nesse processo. Depois de reafirmar repetidamente as pedras, a dor e o esmagamento, o narrador diz que, em seus dias melhores, escolhe “um mundo diferente”; então, enumera movimentos simples — respirar, mover-se, sentir o corpo — até chegar à frase “And then, I get up”. Não é uma cura repentina nem um final plenamente otimista. É uma recusa mínima, corporal e insistente de aceitar a mentira como verdade final.

Cuidar de si além da arte

Ao transformar a depressão em fantasmas, pedras, poços e vozes gravadas, Giles Corey não torna o sofrimento bonito nem o converte em destino. O álbum mostra como a dor pode parecer absoluta, mas também registra a possibilidade frágil de contrariá-la. Sua resposta não é heroica, em razão de se levantar não desfazer o peso, não apagar a tristeza e não resolver o mundo. Ainda assim, representa a decisão de continuar existindo apesar dela.

Arte como essa pode ajudar a nomear experiências difíceis, mas não substitui cuidado profissional e redes de apoio. Se você está em crise ou pensando em se machucar, não fique sozinho. No Brasil, o CVV (Centro de Valorização da Vida) oferece apoio emocional gratuito e sigiloso pelo telefone 188, 24 horas por dia. CAPS, UBS, UPA, SAMU 192, pronto-socorro e hospitais também são canais indicados pelo Ministério da Saúde. Em situação de risco imediato, a orientação é buscar atendimento emergencial.