Góticos, por favor, parem de falar sobre música industrial

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Ou pelo menos, pesquisem direito antes de passarem desinformação

Desde a fundação do Groundcast, um dos gêneros que eu mais prezo é o industrial. O nosso logo, representado por uma roda de engrenagem, é justamente para colocar que, acima de tudo, a gente tem compromisso com o experimental, sobretudo em suas vertentes mais extremas.

A gente aqui tem muitos textos sobre música industrial, inclusive um em forma de FAQ. E a gente entende que é importante colocar informação sobre isso, pois quase nada existe em língua portuguesa e o que algumas pessoas se propõe a publicar, bem, não fala nada que seja aproveitável.

Um amigo meu comentou sobre uma YouTuber chamada Rúbia, mais conhecida como Nosferótika, que decidiu se tornar rivethead e fazer um vídeo educativo. Tudo o que diz respeito ao industrial eu sempre gosto de olhar, para ter certeza de que alguém está fazendo ou não o seu dever de casa.

Não me surpreende ter tanta desinformação ali. Não vou linkar, mas quem tiver interesse pode buscar por “Gótico x Industrial” e conferir o que foi dito ali. Este artigo, longe de querer atacar a imagem da YouTuber, tem como intuito comentar alguns erros de informação apresentados ali, bem como repassar a informação correta a respeito disso.

Rivethead é fã de música industrial

Um grande problema ao se falar sobre rivethead é imaginar que ele representa o fã de música industrial. Isso é parcialmente verdadeiro, porém tem alguns contextos que precisam ser explicados.

Não existe nenhum estudo que coloque a existência de um grupo organizado, a exemplo dos hippies e dos góticos, acerca dos rivetheads. Quase todas as publicações os põe sempre junto aos góticos, o que faz pouco sentido.

No geral, o rivethead é aquele que gosta de electro-industrial, rock/metal industrial e aceita o industrial como subcultura, conforme aparece descrito aqui no Urban Dictionary.

No entanto, industrial constitui uma CONTRACULTURA, que vai contra a ideia de grupo organizado, diferente da subcultura. Dentro da história do gênero isso representa a luta contra o capitalismo e contra qualquer convenção “normal”. Portanto, não existe um “fã de industrial”, mas existe o rivethead, que é alguém que ouve, majoritariamente, electro-industrial, EBM e rock/metal industrial e faz parte de uma subcultura.

Muitos fãs de industrial mais radicais não consideram a existência do rivethead como parte da contracultura industrial, uma vez que eles, na prática, representam o oposto da música noise e congregados.

Gêneros do Industrial

Outro erro muito comum é pensar que industrial é um termo do tipo “música gótica”, que engloba muita coisa. Industrial pode ser entendido como as bandas que vieram da Industrial Records (Woods, 2007, p. 27) e, portanto, pertencem a um recorte temporal e social bem específicos. Na prática, tudo que é produzido fora desse recorte é chamado música noise ou, na melhor das hipóteses, música de vanguarda.

Por conta dessa definição que existe o termo post-industrial, que não classifica um gênero, mas agrupa qualquer coisa fora dessas bandas, como o neofolk, por exemplo. Esse tipo de nomenclatura faz muito sentido, sobretudo porque ajuda a compreender a música industrial enquanto conceito e não enquanto gênero.

A segunda acepção acerca do que é música industrial reside em sua estrutura. Se for admito enquanto gênero, industrial representa a técnica de composição que se coloca contra o sistema, contra os métodos convencionais e pode abranger gente como o John Cage (Woods, 2007, p. 20). Posto isso, industrial representa, nesse caso, qualquer coisa que poderia ser categorizada como noise, onde entra o Throbbing Gristle, o Test Dept, entre outros, fazendo com que todo o resto seja derivativo.

O pessoal do industrial se misturar com o gótico

No finado site do Scathe-Demon explicava-se que o industrial costumava tocar nos mesmos locais de música gótica, por serem baratos e atraindo gente que queria se divertir e tinha pouco dinheiro. Tanto é que bandas como Alien Sex Fiend, vez por outra, pegavam alguns dos seus elementos.

Contudo, não era qualquer coisa de industrial que tocava numa batcave da vida. O que é mais comum tocar nesses locais é basicamente EBM e electro-industrial, o que vai ocasionar o surgimento de bandas de dark electro, por conta da associação e incorporação desses sons dentro do leque das casas noturnas. Esses dois gêneros do industrial são misturas com synthpop e com electro, tornando-os mais dançantes e, por tabela, mais fáceis de serem tocados.

Não é à toa que até hoje se toca muito desses gêneros em pistas de dança. As temáticas, pautadas muitas vezes em sentimentos de melancolia, tristeza ou mesmo na crença de um futuro sombrio, caíram no gosto desse pessoal. Skinny Puppy e Nitzer Ebb são dois grandes exemplos disso.

Então o industrial em si não se mistura com o gótico, não tem visual industrial e isso se refere apenas a uma parcela dos fãs. A maioria das bandas nem tem visual, quando são bandas.

Industrial e crítica social

Uma das confusões feitas no vídeo é dizer que o industrial é político ou pende para esse tom politicista após os anos 1980. Isso é um erro muito grave, uma vez que já existia um viés anticapitalista no Throbbing Gristle, no Monte Cazazza, no Einstürzende Neubauten e no Cabaret Voltaire.

O primeiro grupo de industrial abertamente político foi o Test Dept, que tem o socialismo como tema de suas composições. Os outros vão da contestação da norma social até a abordagem de temas como sadomasoquismo, homossexualidade, nazismo, fascismo e outras de teor leve e delicado.

Contudo, raros são os grupos abertamente políticos. É até estranho chamar o industrial de político ou de crítico à sociedade, sua mensagem só é clara nesse sentido quando se compreende o processo de construção, pois muitas vezes os grupos não têm letras. Além disso, toda crítica social É uma crítica política, não faz sentido tentar separar isso.

Além disso, o electro-industrial e o metal industrial nem sempre trazem críticas políticas muito profundas ou que isso seja uma característica do gênero em si. O Ministry, por exemplo, descascava o George Bush em seus discos, mas isso não quer dizer que o metal industrial seja essencialmente politizado.

Gêneros musicais, de novo

Um outro problema do vídeo é tentar falar dos gêneros agregados ao gosto de um rivethead médio e associar bandas a eles. Em primeiro lugar, é complicado jogar o Ministry como industrial, uma vez que o grupo, lá no começo, pendia muito para o synthpop e depois entrou para o metal industrial. O Skinny Puppy nos seus primeiros discos, antes de incorporarem o electro e, futuramente, o rock alternativo, talvez se aproximasse mais do conceito de música industrial.

Metal e rock industrial não tem muito como errar e o vídeo aponta isso de forma correta. Inclusive é interessante pontuar que, na prática, não faz tanta diferença dizer que uma banda é metal ou rock industrial, talvez em casos muito pontuais como o Nine Inch Nails e o Rob Zombie. Quanto ao EBM, não reclamo muito de colocar o Eisenfunk porque, em geral, ele é vendido como EBM e o gênero já foi bem desfigurado pelas gravadoras (agradeça ao gótico que acha que qualquer coisa é EBM).

Termos como harsh EBM, terror EBM, futurepop e agregados caíram em desuso faz um tempo. O criador do termo, Ronan Harris do VNV Nation, começou a usar para poder se diferenciar de outras bandas de EBM que começaram a colocar elementos de rock e de metal e dar uma conexão com o som dos anos 1980, com maior influência de synthpop. Por isso é um termo vago, impreciso, que na prática rotula bandas de EBM com influências de synthpop ou simplesmente synthpop com arranjos mais sombrios.

Dark electro, electro-goth e derivados são basicamente a mesma coisa com nomes distintos. Em geral, são bandas de electro voltadas ao público gótico. Eventualmente alguém tenta associar ao pessoal do industrial, mas no geral o público tende a deixar exatamente onde tem que estar: na pista de dança.

 

 

 

 

 

 

 

Kraftwerk foi o pai da música eletrônica

Outra falha grave do vídeo é essa, de associar a origem de um gênero a uma banda apenas. Conforme mostrado no documentário da BBC Krautrock: The Rebirth of Germany, música eletrônica já existia antes deles tomarem aulas com o Stockhausen.

O Singing Arc é considerado o primeiro instrumento de música eletrônica (Collins e Rincón, 2017), produzido em 1899 por William Duddell. A primeira composição totalmente feita em linguagem que pode ser considerada eletrônica foi o Poème électronique do Edgard Varèse, composto dentro de uma instalação em 1958 e, na década de 1960, os sintetizadores começam a ganhar espaço nos conservatórios.

Paralelamente, nos EUA, na Alemanha e no Japão também já se produzia música à partir de geradores eletrônicos, em 1953. O Kraftwerk só seria fundado em 1970 e, antes de abraçarem completamente a música eletrônica, faziam parte do movimento que foi chamado de krautrock e apenas em 1974, com o disco Autobahn, que eles, de fato, entraram para a música por sintetizadores.

Conclusões (até onde isso for possível)

O vídeo é extremamente desinformativo, se é que este termo explica o conteúdo. Para alguém que se propõe minimamente a ensinar, faltou pesquisa, faltou conversar com gente certa desse meio e, acima de tudo, procurar em outras fontes.

Eu deixo abaixo algumas indicações de materiais em língua inglesa para consulta, que são os livros e vídeos que normalmente eu emprego para escrever os textos do Groundcast.

É de bom tom também conversar ou conhecer músicos do gênero. Por incrível que pareça, não é tão difícil chegar nos produtores de música ruidosa no Brasil, tampouco entender como é a música industrial na visão deles.

Então fica o recado de que, antes de procurar dar “aula”, pesquisa é fundamental. Acredito que a autora do vídeo não conheça, de fato, o que é música industrial e isso fez com que ela ponderasse todos aqueles erros. Por isso, informação sempre é importante.

Indicações de leitura complementar

COLLINS, N.; RINCÓN, J. D’ E. The Cambridge companion to electronic music, 2017. Disponível em: https://doi.org/10.1017/9781316459874

COPE, J. KrautRockSampler : one heads guide to the Grosse Kosmische Musik. Löhrbach : Werner Pieper’s MedienXperimente, 1996.

FREEMAN, S.; FREEMAN, A. The crack in the cosmic egg : encyclopedia of krautrock, kosmische Musik, & other progressive, experimental & electronic musics from Germany, 2007.

HEBDIGE, D. Subculture: the meaning of style. London; New York: Routledge, 2002.

HEGARTY, P. Noise Music. The Semiotic Review of Books, v. 16, n. 1–2, 2006.

RUTH VECCHIO, B. A.; A. Exploring the Evolution of Industrial Music. May, 2014.

WOODS, B. D. Industrial Music for Industrial People: The History and Development of an Underground Genre. 2007.

Documentários para assistir

Krautrock: The Rebirth of Germany (2009)

Industrial Soundtrack for the Urban Decay (2015)

People Who Do Noise (2008)

Why You Should Listen to Noise Music (não é exatamente um documentário, mas vale assistir)

The Process of Drone (2012)

Podcast

Noisextra


Editor, dono e podcaster. Escreve por amor à música estranha e contra o conservadorismo no meio underground.