O ano em que o underground se tornou moralista, cristão e bom-moço

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Essa é a nossa retrospectiva de 2019 e um balanço de tudo o que rolou no nosso meio. Confesso que é assustador pensar que o underground se tornou uma antítese de todos os valores contra os quais lutou. Tudo isso somado a uma onda intensa de conservadorismo, alimentada por governos de extrema direita, não apenas aqui no Brasil, mas em muito lugares no mundo. Alimentada também por movimentos pró-separatismo, xenofóbicos, sexistas, buscando a valorização do homem heterossexual como o centro de todas as coisas.

Fora de ordem cronológica, uma vez que a intenção deste texto é apresentar os fatos, comecemos pelo Morrissey se declarando a favor de ideias da extrema direita e falando muita bobagem, contando ainda com uma bela “passada de pano” do Nick Cave. O vocalista do Brutal Attack, banda neonazista que ajudou a criar o White Power como movimento, tocou por aqui vestindo uma camiseta da Mancha Alviverde, torcida organizada do Palmeiras.

A vocalista transgênero Föxx Salema, notória por seu engajamento à favor da esquerda e das liberdades individuais, foi atacada diversas vezes por gente ligada a veículos de imprensa como a Rádio 89. Nenhuma dessas censuras foi justificada, exceto pela transfobia de gente que atua no meio há anos, senão décadas. Dois ex-membros do Laboratori foram devidamente expulsos da banda após denúncias (que se mostraram acertadas) contra eles. O motivo: agressão contra suas ex-namoradas.

O grupo Children of the Beast, que faz tributos ao Iron Maiden, foi impedido de tocar na Avenida Paulista e ainda tomaram multa. O mais irônico é que são todos músicos com posicionamento alinhado à direita e apoiadores de políticos que lutam “contra o esquerdismo” no Brasil.

Não limitando às bandas, há locais em que se toca rock, mas não se fala de política. O Facada Fest foi censurado, sob ameaças, por fazer críticas pesadas em seu poster. O Dead Kennedys deu pra trás depois da repercussão do cartaz dos shows, mostrando a imagem de palhaços que representavam a classe média. E agora, recentemente, o vocalista do Olho Seco, Fábio Znovar, publicou uma nota apoiando o ataque terrorista à produtora Porta dos Fundos e criticando a brincadeira feita com a imagem de Deus.

Há também o público, cada vez mais reacionário e conservador. Em qualquer portal que mostre noticias como a criminalização do funk, declarações contra o feminicídio, bandas femininas que buscam apresentar os problemas das mulheres, artistas LGBT que enfrentam problemas relacionados à discriminação e qualquer assunto ou pauta humanitária, sempre alguém ligado ao rock, ao gótico, ao eletrônico e qualquer grupo relacionado ao underground, rebaixando essas pessoas ou seus estilos.

A gente já passou a fase do “rock wins”, que precisava se reafirmar como roqueirão ou metaleirão foda pra caralho. A gente também já passou da fase fiscalizar se tal música entra ou não em determinado gênero. Passamos também da fase de pensar que qualquer tema de caráter social está necessariamente ligada à política partidária.

Só que os fãs de rock, de metal, de gótico e de outros gêneros fora do mainstream parecem viver na mesma ilusão que seus ídolos. Engolir as mesmas críticas vazias que não alteram o sentimento de juvenilidade. Não pensar fora do seu círculo social. Acreditar que racismo e qualquer tipo de violência de gênero é tudo mimimi. Acreditar em político cristão e se declarar como ateu / satanista / pagão. Defender meritocracia e demais ideias que vão contra os mais pobres e reproduz a ideologia dominante.

Felizmente, na mesma proporção, muita gente resolveu sair de cima do muro e falar alguma coisa. Eventos como Hardcore contra o Fascismo, bandas como o Manger Cadavre? e o Eskröta apresentando para seu público pautas muito importantes. Veículos como o Hedflow e gente como o Clinger do Heavy Metal Online produzindo conteúdo de qualidade sobre o fascismo e o nazismo no metal. Festivais como o Abril Pro Rock, que neste ano foi marcado pelo ativismo anti-conservador. Pelo rap, resgatando sua raiz crítica, mostrado em músicas como Rapstência, Insalubre (que aliás, é uma puta porrada), Senhor Candidato, entre outros.

Espero que em 2020 tenhamos mais gente lutando e batendo de frente contra essa onda conservadora e ajude a conscientizar mais gente. Porque 2019 já deu o que tinha que dar.


Editor, dono e podcaster. Escreve por amor à música estranha e contra o conservadorismo no meio underground.