PARALLEL MINDS: “Nós não seguimos lógica nenhuma e não nos importamos com o mercado”

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PARALLEL MINDS é um trabalho muito interessante, que mistura metal, melodias mais clássicas e influências culturais diversas. Batemos um papo com Stéphane, que nos contou sobre a autoprodução do álbum, o cuidado ao trabalhar referências de povos diferentes, as participações especiais no disco, a visão da banda sobre o cenário mundial atual e um pouco sobre como não seguir a indústria musical ainda vale a pena.

 

Inicialmente, gostaria de agradecer por aceitar nosso convite para uma entrevista. Como esta é a primeira entrevista de vocês, poderiam contar aos nossos leitores um pouco sobre a banda e como vocês entraram no universo da música?

STÉPHANE: Obrigado pelo convite! Para responder à sua pergunta… nós não estamos na indústria da música. Quero dizer, levamos o projeto Parallel Minds muito a sério, mas somos uma banda independente pequena e todos nós temos nossos empregos fora da música.

Como surgiu a ideia de combinar sons pesados, melodias “clássicas” e influências de diferentes culturas no Parallel Minds?

STÉPHANE: Tudo se juntou de forma natural. Greg e eu compartilhamos muitas influências, que vão de Mr. Big a Death, o que nos dá uma paleta bem ampla para moldar nosso som. Ele representa o lado mais progressivo, enquanto eu trago uma energia mais agressiva, mais thrash. Compor em dupla nos permite fundir essas abordagens em um som final coeso. O aspecto étnico, desta vez, é consequência do conceito, mas mesmo nos outros álbuns sempre tentamos fazer a música combinar com o tema. Não escrevemos letras aleatórias para uma música; o assunto e a música precisam funcionar juntos.

Vocês definem Cairn como uma espécie de jornada sonora e visual ao redor do mundo; qual foi o ponto de partida desse conceito e por que escolheram a metáfora de um “cairn” (monte de pedras)?

STÉPHANE: Tenho a ideia de todo esse conceito na cabeça há mais de 20 anos. Como sou um viajante apaixonado, a ideia do cairn surgiu naturalmente como uma forma de unir essas duas coisas: a noção de uma jornada interior e a exploração de diferentes culturas.

Quais são as principais referências que moldam o som do Parallel Minds hoje — Iced Earth, Dream Theater, Myrath etc. — ou existem influências mais obscuras que o público talvez ainda não conheça? Eu sinto uma vibe muito moderna e bem diferente, que muitas vezes me lembra algo próximo do metal extremo e também do power metal, sem soar com aquele excesso de artificialidade, e ainda há espaço para uma canção folk no fim do álbum.

STÉPHANE: Como eu disse, temos uma gama de influências muito ampla, até mesmo para além do metal. Gostamos muito de todas as bandas que você citou e, sim, Iced Earth e Dream Theater são influências importantíssimas. Você também pode acrescentar Symphony X, Nevermore e Blind Guardian — bandas que não se prendem a um único gênero preciso, assim como nós.

*Cairn* é um álbum autoproduzido; quais são as vantagens e os riscos de manter controle total sobre o som, a arte e a narrativa do disco?

STÉPHANE: O principal risco para nós é que ninguém ouça a enorme quantidade de trabalho que colocamos na música. Somos bastante controladores, então gostamos de administrar cada aspecto criativo e, como temos todas as habilidades necessárias dentro da própria banda, continuamos fazendo isso álbum após álbum. Outro risco seria nunca parar e ficar mudando as coisas o tempo todo. Mas somos razoavelmente sábios nesse ponto — sabemos a hora de parar de trabalhar em uma música e aceitar ficar “apenas” 99% satisfeitos.

Em Cairn, vocês citam influências africanas, asiáticas, celtas e de outras culturas; como escolhem quais povos e tradições musicais incorporar em cada faixa sem cair em uma apropriação superficial?

STÉPHANE: Tenho um documento interminável cheio de temas e histórias para músicas futuras. Em determinado momento, eu tinha por volta de vinte ideias em potencial, e eu e Greg decidimos quais países e culturas seriam mais interessantes de explorar musicalmente. Precisava ser algo facilmente reconhecível para o ouvinte. Depois disso, ele fez um grande trabalho pesquisando harmonias e escolhendo quais instrumentos funcionariam melhor. Também tentei envolver o maior número possível de músicos convidados para manter um toque autêntico. Infelizmente, isso foi mais difícil do que eu imaginava, mas ainda assim conseguimos fazer isso bem — especialmente em “Orishas”, com a incrível cantora que interpreta a parte central da música.

Falando de culturas não ocidentais e não brancas, esse trabalho me fascina, especialmente porque rompe completamente com a lógica de mercado, além de trazer outros elementos para o universo do metal. Como surgiu essa ideia de dar mais visibilidade a esses povos?

STÉPHANE: É porque nós não seguimos lógica nenhuma e não nos importamos com o mercado. Nós apenas escrevemos aquilo que amamos e o que não ouvimos em outras bandas. Depois de deixar essa ideia amadurecer por 20 anos, finalmente pareceu que era o momento certo para realizá-la.

Como é dividir a criatividade entre Stéphane e Grégory, considerando que vocês mesmos dizem que “duas mentes trabalham juntas como uma só”? Quem costuma liderar mais na parte das letras, dos riffs ou da estrutura das músicas?

STÉPHANE: Greg geralmente aparece com músicas mais guiadas por riffs e mais completas. Do meu lado, eu ofereço uma base sólida, com a dinâmica geral e as melodias vocais. O mais interessante é que cada um de nós traz ideias que às vezes parecem “antinaturais” para o outro, e isso cria um processo criativo muito saudável e produtivo.

“Sufero” traz colaborações com artistas do Togo e de outras regiões; como foi trabalhar com músicos de contextos tão diferentes, e qual foi o papel deles na construção do som do álbum?

STÉPHANE: Você pode falar de “Orishas”. Os músicos convidados não influenciaram fundamentalmente a composição, porque nós entregamos demos fortes e bem completas. Mas, claro, eles trouxeram seu próprio toque e sua sensibilidade para a música.

“Fear Is the Pandemic” e outras faixas parecem abordar medo, luta e resistência; como esses temas se conectam com o que o mundo vive hoje?

STÉPHANE: Quando pensamos no mundo, a última música foi concebida como uma conclusão para todas essas histórias e para refletir nossos sentimentos sobre a situação global atual. Sou bastante pessimista, então a história não tem um final feliz. Em todos os continentes e em quase todos os países, o racismo, o extremismo e o egoísmo continuam crescendo. Essa visão está profundamente ligada ao restante do álbum, que também lida com temas sombrios e intensos.

Somos um site brasileiro, então é claro que não poderíamos deixar essa pergunta de fora: vocês conhecem e gostam de alguma banda do Brasil?

STÉPHANE: Tirando as bandas maiores, para ser sincero, não muito. Nervosa é incrível. Nunca fui um grande fã de Sepultura — simplesmente não é o tipo de thrash que mais me agrada — mas respeito totalmente o que eles fizeram e o legado deles. Sempre fui um grande fã de Angra, e André Matos foi um dos nossos primeiros heróis, tanto para mim quanto para Greg. Também acompanhei todos os projetos paralelos, como o Almah, cujo primeiro álbum era muito poderoso, mas nada se comparava à sensação que eu tinha na época de Angels Cry.

Quero agradecer muito pela entrevista, e aqui fica o espaço para vocês deixarem uma mensagem aos nossos leitores. Vamos lá.

STÉPHANE: Acredito que os metalheads brasileiros vão se identificar muito com Cairn. Eles vêm de uma bagagem cultural rica e têm mente aberta o suficiente para abraçar essa fusão de estilos, seguindo o caminho de muitas bandas brasileiras antes de nós.

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Editor, dono e podcaster. Escreve por amor à música estranha e contra o conservadorismo no meio underground.