wazzara: “Quanto mais você se afasta desse conceito de homem ideal, menos digno você é considerado

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O projeto wazzara, agora uma banda, já é destaque no Groundcast. Entrevistamos novamente Barbara, compositora e vocalista, sobre os dez anos da banda e o lançamento do álbum ARBOR. A conversa aborda a evolução artística desde “Cycles”, a maturidade nas composições, maior colaboração entre músicos e novas influências de doom metal, black metal e shoegaze.

 

Com ARBOR, wazzara celebra dez anos de existência. O que este álbum diz sobre você hoje que talvez não fosse tão claro na época de Cycles?

BARBARA: As músicas de ARBOR mostram uma transformação em direção à maturidade em comparação com as de Cycles. Naquela época, o estilo do wazzara estava apenas começando a tomar forma e, ao escrever o material de Cycles, eu me sentia um pouco como uma criança em um parque de diversões. Entre esses dois álbuns, eu desenvolvi habilidades de composição e cresci — e, claro, mudei — como pessoa, e diria que hoje tenho uma conexão mais clara com a música que quer vir à tona através de mim. Além disso, em ARBOR, abri espaço maior para colaboração. George, que toca baixo no wazzara, acrescentou alguns riffs de guitarra cruciais, enquanto Andrei Jumugă, que gravou a bateria no disco, teve uma influência valiosa nas músicas com ideias brilhantes de arranjo e acréscimos.

Ao ouvir o álbum, notei que ele soa diferente dos anteriores, algo mais sombrio e etéreo, com referências não apenas ao doom metal, mas também ao black metal e ao shoegaze. Como vocês planejaram que este trabalho deveria soar?

BARBARA: Eu nunca escrevo com um propósito pré-definido. Eu simplesmente experimento com os estilos musicais que melhor se ajustam a mim para transportar e expressar o que quero ou preciso, e então, na maior parte do tempo, algo ao mesmo tempo sombrio e etéreo acaba surgindo. Portanto, não havia uma intenção clara de como as músicas deveriam soar no fim — tudo o que eu sabia, quando comecei a compor, era que tinha muita raiva para expressar e que queria mergulhar mais fundo no meu lado musical mais escuro — nas sombras, na honestidade.

O conceito de ARBOR é dedicado “àqueles que não têm medo de provar o fruto indomado” e fala de uma força antiga que está enterrada, mas nunca quebrada. Como essa ideia surgiu e como ela se conecta às suas trajetórias pessoal e artística?

BARBARA: Acredito que estamos em um momento em que muita coisa que foi varrida para debaixo do tapete e mantida em silêncio está vindo à tona. Pessoalmente, tenho muito interesse na capacidade dos seres humanos de se conectar com a intuição enquanto o mundo em que vivemos é tão regido pela lógica, medição, competição e todas essas coisas (que também têm seus lados bons, você sabe). Mas os sistemas nos quais vivemos também contribuíram para nos cortar do saber intuitivo e da nossa conexão com a natureza — que é muito maior do que nós. Nós não estamos separados dessa força, mas essa conexão foi turvada por certos sistemas (e sistemas de crença). Agora é preciso coragem para pensar a fundo e confiar no próprio instinto para conseguir seguir navegando neste mundo — e abandonar o que já não serve mais. Conectar-se com o indomado, o selvagem.

As outras músicas de ARBOR foram compostas entre 2023 e 2025. O que mudou, em termos de escrita e arranjos, na forma como você compõe hoje, em comparação com a época do EP zessa e do álbum Cycles?

BARBARA: Acho que hoje sou mais corajosa para me afastar de ideias fixas e consigo abrir mais espaço para partes que podem parecer estranhas à primeira vista, mas que justamente por isso são as partes realmente interessantes, aquelas que vão te levar além do que você já fez. Além disso, um grande salto foi, claro, a colaboração com Andrei — tê-lo olhando para as músicas de fora foi muito valioso não apenas para as canções em si, mas também para eu aprender mais em termos de composição.

Barbara, você começou o wazzara como um projeto solo para poder compor do seu próprio jeito, com uma atmosfera mais sombria e influências de black metal. Quanto dessa necessidade “solitária” ainda existe em ARBOR e quanto o trabalho em banda transformou sua visão?

BARBARA: Eu diria que minha visão não foi transformada por isso — continua sendo praticamente a mesma visão musical, mas a forma foi ficando mais adequada a cada álbum. Mas eu, como musicista, fui transformada por causa da banda. Reconheço que minha visão só consegue se manifestar com, ou graças a, todos os outros músicos, mas tudo começa com minhas ideias. Então aprendi a fazer malabarismos: iniciar algo, mas depois entregar para os outros mexerem e, enquanto fazem isso, confiar neles — sempre no interesse do melhor resultado musical possível, não no interesse do ego.

Você voltou a trabalhar com Andrei Jumugă que, além de baterista de sessão, assumiu o papel de produtor. Como essa colaboração afetou a musicalidade do álbum?

BARBARA: Como mencionei antes, Andrei teve um impacto enorme. Ele é muito talentoso em perceber o que precisa de um pouco mais de “cola” ou o que simplesmente precisa ser cortado, e trouxe algumas adições muito originais em termos de arranjos. Eu adoro trabalhar com pessoas para as quais não preciso explicar minha visão, minhas músicas, minhas ideias, mas que simplesmente entendem e ajudam a dar forma à sua visão. Andrei é definitivamente uma dessas almas raras, e ARBOR se beneficiou muito do talento dele.

Além disso, quem também influenciou bastante na forma como o álbum soa e é sentido foi Andy Rosczyk, que fez a mixagem estéreo. Voltamos a trabalhar com ele pela segunda vez porque ele também parece entender o que buscamos e extrai o melhor disso. E então houve Martin Korth que não só entregou essa masterização linda como também preparou os arquivos para Dolby Atmos — ainda é bem incomum ter música extrema mixada em Atmos, mas quisemos tentar — e valeu muito a pena! Se alguém que estiver lendo isto tiver a oportunidade e o equipamento para ouvir nossa música em Atmos, por favor, faça isso — é uma jornada bem emocional! Eu gosto muito.

A produção do álbum foi “fragmentada” entre seus home studios na Suíça e as baterias na Romênia. Como foi gerenciar tudo isso? Quanto isso influenciou ARBOR?

BARBARA: A colaboração foi impecável, também graças aos tempos modernos. Hoje em dia é fácil colaborar mesmo estando em países diferentes — também porque as músicas estavam completamente finalizadas e escritas antes de serem gravadas, e não dependiam de ainda serem desenvolvidas por meio de jams ou improvisos, como talvez você faria quando vai ao estúdio com todo mundo junto.

Entre a última entrevista que você nos concedeu no Groundcast em 2022 e hoje, o que mais mudou na forma como você enxerga sua própria carreira e o lugar do wazzara dentro da cena metal/underground?

BARBARA: Desde então, construímos muitas memórias incríveis juntos como banda — tivemos a sorte de viver shows inesquecíveis e de conhecer pessoas adoráveis pelo caminho. Isso, somado ao ótimo feedback que temos recebido da cena underground, é a essência que nos mantém em frente.

Em termos de letras, ARBOR fala de vozes silenciadas que agora se erguem. Houve episódios específicos — pessoais, sociais ou políticos — que influenciaram a escrita deste álbum e que você sentiu que precisavam ser colocados em música? É uma pergunta um pouco amarga, mas sinto que neste álbum há uma voz ainda mais poderosa que confronta o silenciamento de pessoas que não fazem parte do que consideramos “padrão”.

BARBARA: Eu adoro perguntas amargas, porque muitas vezes chegam ao centro das coisas! E obrigada por perceber essa voz. Minha preocupação de fato era — e é — o silenciamento de pessoas que não se encaixam na norma, enquanto vejo a nossa norma atual como completamente doente. Também me preocupo com sistemas de crenças que há milhares de anos nos dizem que somos inferiores a um conceito de Deus que considero muito hostil à vida. Isso está em nosso DNA. E as mulheres são especialmente afetadas por esses sistemas de crenças — a religião desempenhou um papel enorme em ajudar a moldar o conceito de “homem ideal” como padrão superior, sob o qual todos, mulheres e homens — e animais, aliás — sofrem muito. Quanto mais você se afasta desse conceito de homem ideal, seja por sexo, gênero, deficiências, pobreza ou o que for, menos digno você é considerado. Isso é doente e, novamente, hostil à vida.

A transição de projeto solo para banda completa trouxe novos membros e novas dinâmicas. Quais foram os maiores desafios humanos nessa transformação e como isso impactou as decisões criativas em ARBOR?

BARBARA: Quando você depende de outras pessoas para ajudar a dar vida à sua visão musical, você vai precisar de pessoas que estejam prontas e capazes de recuar quando for necessário e de dar um passo à frente na hora certa, deixando o ego do lado de fora. Isso não é algo que agrada a todo mundo, e tudo bem — mas aprendi a não mais fazer concessões. Se alguém não sente o que estamos fazendo aqui, nenhum de nós ficará feliz, então é preciso se separar. Tornei-me muito sensível a ter as pessoas certas em torno da minha visão musical e a cortar laços quando necessário, e acho que ARBOR se beneficiou muito dessa honestidade em todas as direções.

O título ARBOR vem depois de Ombreine, Cycles e zessa. Se pensarmos nesses nomes como capítulos, que tipo de narrativa mais ampla eles contam sobre a evolução espiritual e estética do projeto?

BARBARA: Se você colocar esses títulos em capítulos, seria “um começo” — “essência da vida” — “morte” — “superconsciência”. Um movimento de um começo pequeno, talvez tímido, em direção a uma espécie de maturidade.

Pensando no público brasileiro, que é muito intenso e emocional, que sentimento você imagina que ARBOR desperta em quem está ouvindo wazzara pela primeira vez aqui?

BARBARA: Acho que um público muito intenso e emocional é exatamente o público certo para nossa música. Nossas músicas não estão no lado do “easy listening”, elas são feitas para provocar sentimentos; elas te convocam tanto a dançar quanto a lutar com suas sombras. Elas dependem de ouvintes que estejam abertos a essa experiência.

A arte gráfica do álbum foi criada por você, Barbara. Como foi traduzir visualmente o conceito da árvore, das raízes e dessa força ancestral, e como a estética visual dialoga com o som?

BARBARA: Eu geralmente amo o processo criativo de expressar uma determinada ideia numa folha de papel em branco. Você mesma decide quão óbvia ou sutil quer ser, e quais elementos devem ser escolhidos e quais devem ser deixados de fora. Neste caso, a arte está intimamente entrelaçada com minhas letras no álbum. Mas eu gostaria de deixar qualquer interpretação adicional a cargo do ouvinte/espectador.

Agora eu gostaria de agradecê-la muito pela paciência e por nos receber novamente. Deixe, por favor, uma mensagem final para nossos leitores.

BARBARA: Muito obrigada pelo seu tempo e pelas perguntas bem preparadas.
A todxs que estão lendo isto e curtindo o que fazemos: muito obrigada. Isso realmente significa muito. Obrigada pelo apoio!

Links relacionados

Site oficial: https://www.wazzara.com

YouTube oficial: https://www.youtube.com/@wazzaraofficial

Bandcamp: https://wazzara.bandcamp.com

Instagram: https://www.instagram.com/wazzaraband

 


Editor, dono e podcaster. Escreve por amor à música estranha e contra o conservadorismo no meio underground.