Respeitem as mulheres no metal, porra!

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Confesso que nunca me passou pela cabeça escrever um texto para defender o Nervosa. Eu não morro de amores por ela, inclusive há muitas posturas que eu acho meio merda, como quando elas atribuíam qualquer crítica simplesmente ao machismo ou, como a gente comentou num podcast, que a banda é subestimada demais por apresentar um som bem mais do mesmo. Isso sem contar que tem uma música parecida demais com outra do Antidemon

Entretanto, a gente aqui nunca se ocupou de criticar a banda fora desses méritos, até porque seu público não é o mesmo que o nosso. Há muitas vitórias por parte delas, como ter tocado do Abril Pro Rock, de terem sido chamadas para o Wacken 2020, que infelizmente não aconteceu em virtude da COVID-19. Isso sem contar o Rock in Rio e tantas outras conquistas que, para uma banda “mais do mesmo”, são invejáveis.

Só que toda banda passa por crises. Manter uma banda, conviver com pessoas, tudo isso é estressante. Respeito muito quem consegue manter uma formação como a do Paradise Lost, que trocou apenas de bateristas à partir de 2004 e que todo o resto está com a banda desde a formação. Ou mesmo o Krisiun, que mantém exatamente a mesma formação desde 1990.

No dia 25 de abril, a vocalista Fernanda Lira anunciou sua saída da banda. Logo depois a baterista Luana Dametto se desliga da banda, restando somente a guitarrista Prika Amaral, que já declarou a continuidade da banda, com outras pessoas. Tudo isso é bem normal dentro da realidade de qualquer banda, até mesmo porque as declarações que nada dizem parecem apontar para problemas internos, coisas que toda banda passa.

O que veio posteriormente, contudo, foi uma enxurrada de comentários extremamente indelicados que podem ser sintetizados em mostrar que a banda “acabou” porque é formada apenas por mulheres, que era uma banda ruim porque “lacrava” demais e não fazia música, que não tinham técnica, que mulher não pode ter banda porque nem elas se entendem, que elas se vitimizam.

Percebe o problema nisso? Esse tipo de discurso te incomoda? Para mim e toda a equipe do Groundcast isso não apenas incomoda, mas nos deixa muito enojados. Porque com esse tipo de fala normatiza-se determinados padrões sociais que nem de longe correspondem ao mundo. Joga a culpa do fracasso não nas relações humanas, na incapacidade de lidar com o próximo, nos problemas de ordem econômica, mas sim no gênero, na defesa de opiniões autônomas, na pouca capacidade de fazer as coisas por elas mesmas.

Saiu lá no Combate Rock esse texto bacana que resume bem algumas coisas que eu penso sobre isso. Existe um desprezo também por parte das bandas e, sem nenhuma surpresa, dentro do mesmo segmento que elas tocam. Reflete o que eu disse antes sobre a trajetória delas ser invejável. Se eu fosse um músico de metal também invejaria (ainda que de forma positiva) todo o sucesso que elas conseguiram.

O Wikimetal também tem um texto bom sobre se sentir envergonhado com a cena depois desse episódio. Confesso que, por mais que a gente fale bastante de metal, o nosso site não é sobre metal e eu estou muito longe de ser alguém do meio. Considero-me mais perto de coisas underground e experimentais do que do metal em si. Mas minha formação musical foi com rock e heavy metal e desde quando eu era moleque o meio foi sempre MUITO conservador. Nos idos de 2000 eu nunca conheci uma mulher que gostasse de metal na minha turma, era sempre o grupo dos cabeludos com camiseta preta que curtiam som sem frescura e enchiam a cara mesmo sendo menores de idade.

Como paralelo, tivemos em 2000 a saída de metade do Angra por problemas relacionados ao empresário na época. Ninguém falou que isso acontecia porque era uma banda apenas de homens e que por isso não conseguem viver juntos, nem que era culpa do feminismo ou dos comentários acerca da sexualidade do André Matos. Até porque nada disso acontece para bandas masculinas. Para elas simplesmente as pessoas entendem que problemas acontecem com a convivência.

Não sabemos os motivos da separação e pessoalmente odeio notas genéricas que não dizem nada. Mas é direito delas manter as coisas assim, apenas comunicar que agora elas não estão mais juntas, pois NÃO IMPORTAM os motivos. O que muda saber que elas se separaram por conta de divergências pessoais? Por problemas financeiros (a causa mais comum em disputas com bandas)? Cansaço em virtude da convivência? Nada disso muda ou importa mais que elas, nesse momento, não fazerem mais parte da mesma banda.

Esse desrespeito com as mulheres no metal é um sintoma muito grave da falta de uma visão que rompa com o conservadorismo da nossa sociedade e que é replicado por gente que liga apenas para o som. Como já conversei com a Katherine Shepard do Sylvaine uma vez, isso também é fruto da própria indústria musical ser focada em valorizar os feitos dos homens e esquecer que mulheres devem ser vistas com igualdade. Há muita mulher bacana produzindo música, seja em bandas totalmente femininas, seja junto com caras, não apenas como vocalista. E por que elas não podem ser respeitadas e vistas exatamente como as bandas masculinas? O que justifica todo o ódio contra o Nervosa e suas ex-integrantes?

Precisamos respeitar as mulheres no metal, no gótico, no eletrônico e em todo lugar. Respeitar implica também em deixar para trás uma visão de mundo menos protagonista para elas e entender que todos estamos juntos e que sim, elas têm todo direito a autonomia como a gente aqui tem.


Editor, dono e podcaster. Escreve por amor à música estranha e contra o conservadorismo no meio underground.